O mordomo da Casa Branca

Robin Williams, na pele de um verossímil Eisenhower, servido por Forest Whitaker

Robin Williams, na pele de um verossímil Eisenhower, servido pelo “mordomo” Forest Whitaker

Juro que eu ia escrever sobre o mais novo filme de Tom Hanks, Capitão Philips, mas o trailer é tão entediante que resolvi falar sobre O mordomo da Casa Branca, em cartaz na cidade desde a semana passada. Não sei se fiz a aposta certa. Mas o cinema, parafraseando o personagem Forrest Gump, um dos mais famosos personagens do ator, por sinal, da época em que ele era bom, é como uma caixinha de bombons sortidos. Ou seja, a gente nunca sabe o que vai encontrar.

Dirigido por Lee Daniels (Obsessão) e produzido por Oprah Winfrey – a apresentadora norte-americana que é uma das mulheres mais poderosas do planeta, aqui uma das protagonistas -, o filme percorre a trajetória de Cecil Gaines (Forest Whitaker), um negro oriundo do lado mais violento do Sul da América racista que chega ao posto de mordomo da Casa Branca. A corrida dele até ali não foi nada fácil.

Depois de ver a mãe estuprada pelo senhor branco dono das terras e o pai assassinado por este mesmo nos campos de algodão, ele é levado para ser “negro de casa” pela mãe de seu algoz por comiseração. Lá aprende a difícil arte de servir, mas como agradecimento à oportunidade que ganha pega o caminho de casa e vai embora, deixando todos os fantasmas da tragédia pessoal e da dor para trás. No meio do caminho, desamparado, com frio, fome, rouba uma loja de doces, sorte dele o gerente negro desta o adotar, aprimorando seu dom para servir os brancos esnobes.

“Você tem que ter duas caras: uma amigável só para os brancos e outra só sua”, explica o experiente homem.

O conselho parece surtir efeito porque Cecil se torna um às na condição de mordomo e valete O mordomo da Casa Branca 2em hotéis de luxo e clube, até ser requisitado, graças ao seu talento, para trabalhar na Casa Branca. Lá ele irá ser subserviente, submisso, prestativo e confidente de oito presidentes, de Eisenhower a Ronald Regan. “Não vê nada e não ouve nada. Apenas sirva”, ensina seu superior, em atuação espetacular do desconhecido Colman Domingo.

Livremente baseado na vida de Eugene Allen – que em 2008, ano em que o presidente Barack Obama chegaria à presidência dos Estados Unidos, ganhou um perfil elogiado no conceituado Washington Post -, o filme é cheio de problemas do ponto de vista histórico e no que diz respeito à veracidade dos fatos. Mas conquista o público por levar de forma melodramática ao extremo questão que é uma mancha incômoda no DNA da América: a segregação racial. Daí o tom pró-Obama da fita.

Mas para quem não entende e não gosta nem um pouco de política como eu, esse último detalhe passa despercebido, chega a ser irrelevante. Bom mesmo é brincar de quem é quem na trama, com grandes nomes do cinema e da música norte-americana em cena.

Feia, desleixada e irreconhecível, Mariah Carey passa despercebida como uma catadora de algodão estuprada. Já o astro pop da música Lenny Kravitz está um sundae na pele de um dos mordomos da Casa Branca perito em culinária francesa. A cena em que ele reclama os direitos de seus pares ao candidato Nixon (John Cusack) é impagável.

Algumas atuações são estupendas, como a do protagonista Forest Whitaker e a do ator inglês de origem nigeriana David Oyelowo (Obsessão), que vive aqui um jovem rebelde que luta por um lugar ao sol no meio do furacão que foi a luta pelos direitos civis.

Enfim, retratado de forma correta ou não, o fato é que o câncer do racismo que afligiu os Estados Unidos no passado ainda é um tema a ser explorado infinitamente no cinema daquele país. Eu só sei que este roteiro nas mãos do Spike Lee seria uma bomba.

* Este texto foi escrito ao som de: Hitsville USA, Vol. 1: The Motown Singles Colletion, Disc 2 (1959 – 1971)Hitsville 2

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