Um misterioso assassinato em Manhattan (1993)

Woody allen e Diane Keaton discutindo o casamento a partir de um crime quase perfeito

Woody allen e Diane Keaton discutindo o casamento a partir de um crime quase perfeito

Para buscar a salvação as pessoas costumam ler a Bíblia, fazer orações, coisas do tipo. Eu não. A salvação para mim é curtir as boas coisas da vida, como por exemplo, ver um bom filme do Woody Allen. Sobretudo quando o filme em questão é um que eu não tinha assistido ainda. Mas o que há velhinho, ninguém é perfeito! Por incrível que pareça, eu, um fã do diretor de carteirinha empedernido, não conhecia Um misterioso assassinato em Manhattan. Daí o prazer de conferir outro dia a trama de 1993 no Telecine Cult. Confesso que há muito tempo eu não ria de gargalhar.

E todo “woodyallenmaníaco” que se preza, sabe que os melhores trabalhos do cara são aqueles em que ele é o protagonista. Aqui o diretor é Larry Lipton, um editor da conceituada revista Harper’s Bazaar que tem sua rotina quebrada com a suspeita de que o vizinho de porta do prédio onde mora cometeu um assassinato. Pelo menos é o que acha a esposa bisbilhoteira vivida por Diane Keaton, que tenta dá um gás no casamento convencional dos dois apostando numa teoria maluca alimentada pelo amigo recém viúvo Ted (Alan Alda), que nutre um amor secreto por ela.

“Se vai ter um caso não precisa de um assassinato para isso”, ironiza Larry se mordendo de ciúme.

A velada crise conjugal embrulhada numa relação confortável como um sapato velho, como diz um dos dois, ganha contornos de tragicomédia quando as suspeitas se transformam em fatos concretos de um crime, ainda mais quando eles estão envolvidos como testemunhas do caso. “Claustrofobia e um corpo. É a sorte grande de um neurótico”, diz o personagem de Woody Allen, preso num elevador às escuras com a mulher, numa das melhores cenas do filme.Manhattan Murder Mystery

Mas é isso, quando o cara é bom consegue fazer piada até mesmo no escuro, tendo como ferramenta apenas a voz e a força das palavras o que, no caso de Woody Allen, são um souvenir de bom gosto. “Não posso ouvir tanto Wagner. Fico com vontade de invadir a Polônia”, faz troça com sua condição de judeu paranoico.

Aliás, o que é incrível em Woody Allen é a sua capacidade de se repetir sem ser o mesmo, se é que vocês me entendem. E ele faz isso usando temas recorrentes de sua cartola mágica de piadas e situações hilárias recauchutados de forma brilhante.

Para mim, contundo, o mais gostoso são as referências culturais, divertidíssimas, dessa vez homenageando mestres do cinema como Billy Wilder, com o seu sinistro Pacto de sangue (1944) e Orson Welles, quase que reproduzido quadro a quadro na famosa cena final da sala dos espelhos de A dama de Shanghai (1948).

E por falar em referência, o próprio Woody Allen admitiu que Um misterioso assassinato em Manhattan fora inspirado na comédia policial dos anos 30, The thin man (A ceia dos acusados), por sua vez, baseada em história de Dashiell Hammett, um dos heróis do cineasta nova-iorquino.

Com todos esses deliciosos ingredientes, o filme ainda é melhor por nos brindar com mais uma parceria entre Woody Allen e Diana Keaton, tão cúmplices e à vontade em cena quando do tempo em que começaram juntos 20 anos antes desse trabalho, em 1973, na comédia O dorminhoco.

* Este texto foi escrito ao som de: 13 (Blur – 1999)

13 - Blur

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