Saudades do Chico Anysio

"Quero mais é que pobre exploda!", bordão de um personagem infelizmente atual. Raad Massouh que o diga...

“Quero mais é que pobre exploda!”, bordão de Justo Veríssimo. Um personagem infelizmente atual

Um sujeito elegantíssimo e mal-encarado com um bigode a la Hitler, meio chaplinesco está atolado na poltrona de seu luxuoso escritório. Está concentrado com as anotações e quando o assessor entra afobado na sala, ele sapeca sem tirar os olhos da conta:

– Cadelo, me diz uma coisa. Hoje eu roubei mais do que ontem?

Indignado com a pergunta, como se fosse assim uma ofensa cabeluda, o secretário puxa-saco responde:

– Muito mais deputado, o triplo!

Satisfeito com a resposta, o deputado corrupto declarado, Justo Veríssimo, diz aliviado:

– Graças a deus! Pensei que eu já estava decadente – comenta já cravejando outra pergunta ao fiel funcionário:

– Mas diga, o que foi agora?

Nervoso, Cadelo vai passando as informações olhando para a porta:

– É que tem uma comissão…

– Manda depositar na minha conta!! – ordena antes mesmo do subordinado terminar a frase.

– Não deputado, não é esse tipo de comissão. É uma comissão de professoras. Está lá fora querendo aumentar a verba para educação – detalha Cadelo, meio desconcertado.

Chico Anysio - ChargeSem pestanejar, o cara passa as instruções:

– Manda entrar que para elas verem que além de corrupto eu sou mal-educado. Tenho horror a pobre, quero mais que pobre exploda!

E essa última frase desse marcante personagem me fez lembrar a notinha que li outro dia na coluna Nas Asas do Planalto da jornalista Lilian Tahan, em que ela descreve um episódio parecido envolvendo o deputado distrital Raad Massouh, cassado recentemente. Foi quando constatei triste, o quanto o genial Chico Anysio ainda continua atual com suas piadas inteligentes e exemplares.

Na boa. Que saudades do velho Chico Anysio, que agora está sendo homenageado com a exibição no Canal Viva de seus melhores momentos na tevê com o humorístico Chico Total.

No último fim de semana ri bastante ao recordar de alguns desses quadros e personas inesquecíveis que marcaram minha infância e me dei conta de como o grande humorista cearense faz falta nesse mar de mediocridade e sem criatividade em que o humor brasileiro está mergulhado nos últimos tempos.

Para mim, que não entendo muito do assunto, o humor no Brasil se divide em antes e depois de Chico Anysio. O auge de sua carreira na televisão brasileira é um divisor de águas no gênero porque o artista do riso tinha a habilidade de fazer graça para o povo apostando num estilo em que agregasse sofisticação, inteligência e simplicidade. O que não era nada fácil, ou seja, atingir as massas com o mínimo de sensibilidade humorística. O que hoje não existe. Ah, sim, e o cara foi o primeiro stand up brasileiro, até hoje insuperável no formato, que os frugais Rafinhas Bastos e Danilo Gentilis da vida nunca se esqueçam disso.

“Não era fácil competir com monstros sagrados do humor como Golias, Zé Trindade, Walter D’Ávila e Brandão Filho, Oscarito e Grande Otelo e tantos outros, então pensei: ‘tenho que achar um espaço para mim, foi quando resolvi ser aquele que faz vários’”, disse certa vez, ao explicar os mais de cem personagens que criou.

Alguns desses personagens estão tão presentes em nosso inconsciente que nos faz pensar até que são membros da família, como o ancião Pantaleão, o maneiro Jovem, o paternal Professor Raimundo, enfim uma infinidade de outros. Algumas pessoas não poderiam morrer. Que saudade imensa do velho Chico.

* Este texto foi escrito ao som de: Os Brazões (1969)

Os Brazões

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