Lua de fel (1992)

A bela mulher de Polanski bem à vontade diante dos olhos lascivos de outro homem

A bela mulher de Polanski bem à vontade diante dos olhos lascivos de outro homem

Um dia Roman Polanski entrou no escritório do produtor de cinema Alain Sarde e não tirou os olhos da capa de um livro de bolso em cima da mesa, que trazia uma mulher voluptuosa com costas nuas. Levou a edição para casa e leu a história da noite para o dia, numa sentada só. Na manhã seguinte, excitado, o cineasta franco-polaco ligou para o amigo pedindo os diretos de filmagem da trama que foi para as telas como a conhecemos hoje, Lua de fel, baseado em obra de Pascal Bruckner.

A trama não tinha nada de soft pornô, como os críticos nazistas que a vida toda perseguiria o artista acusaram de ter, mas por via das dúvidas, o diretor mandou um fax­-convite para Peter Coyote com a seguinte provocação. “Você sabe a diferença entre erotismo e pornografia? No primeiro, você usa apenas a pena. No segundo, você usa a galinha inteira”, escreveu, apostando no potencial de seu trocadilho inteligente. Deu certo.

O enredo gira em torno das lembranças amargas de Oscar (Peter Coyote), um escritor fracassado norte-americano aleijado que, durante um cruzeiro rumo à Índia, conta a trágica história de sua vida ao comportado inglês Nigel (Hugh Grant). Nigel comemora sete anos de casado com a viagem dos sonhos ao lado da esposa (Kristin Scott Thomas), mas o destino lhe reserva grandes surpresas quando entra em cena a bela e lasciva mulher de Oscar, Mimi (Emmanuelle Seigner), que coloca em evidência a mórbida curiosidade humana, aliada a um senso de hipocrisia quase patológico.

“Ela tinha um frescor e uma inocência, uma combinação perigosa de maturidade sexual e ingenuidade”, diz ele ao seu ouvinte, relembrando dos bons tempos de amor e paixão ao lado da bela e jovem colegial. “Éramos dois peixes dourados num aquário”, emenda.

Daí para frente o que se vê é uma das mais perturbadoras radiografias da natureza humana, no Lua de fel 2que ela tem de pior, a partir de um doloroso ensaio sobre o sadismo e o amor desprezado. Coisas que eu entendo muito bem, daí o fato do filme ter funcionado como uma espécie de incômoda terapia para mim. “Todos têm traços de sadismo”, comenta o desiludido e amargo Oscar, ainda lambendo as feridas frescas em seu corpo, sua alma e em sua mente.

A delicadeza das cenas de sexos, mesmo naquelas mais tórridas, é tão elegante que não justifica o rótulo de soft pornô dado ao filme por críticos ranzinzas. E a atuação de Peter Coyote como um autêntico loser é arrasadora. “Ela contentava-se com pouco, do contrário não teria se casado comigo”, debocha de si mesmo.

A natureza bizarramente sutil de algumas passagens segue na mesma vibe do macabro Encaixotando Helena, mas em alguns momentos lembram também o lado mais grotesco de 120 dias de Saló, de Pier Paolo Pasolini. Mas a mão firme de Polanski com sua reflexão ácida sobre as agruras do relacionamento se sobrepõe, fazendo de Lua de fel um de seus melhores trabalhos do ponto de vista do texto.

“Uma conclusão possível seria que Polanski, agora num casamento feliz, fazia na verdade um depoimento moral sobre a futilidade e a autodestrutividade geral do sexo sem amor, embora a maioria dos críticos ficasse mais impressionada com a travessura lésbica”, escreve seu biografo Christopher Sandford.

O close de abertura, homenageando a clássica cena de Profissão repórter, do mestre Antonioni é mágico, como excitante são as passagens em que Mimi se besunta de leite ou lambe o sangue no rosto do amante. Mas gosto da ingenuidade da bela mulher de Polanski brincando de amarelinha ou passeando tristemente no fundo de um ônibus, com seu petrificante olhar de anjo.

* Este texto foi escrito ao som de: Listen without prejudice Vol. 1 (George Michael – 1990)

George Michael

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s