Porque ler “O tempo e o vento”

O mérito da obra  está em sua grandeza narrativa que se propõe romancear a história de um povo e de um lugar a partir de aspectos sócio-antropológicos

A obra romanceia a história de um povo e de um lugar a partir de aspectos sócio-antropológicos

Terminei de ler outro dia a primeira parte da saga O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, e posso dizer de boca cheia, com o peito repleto de satisfação que a obra está entre os melhores livros que devorei em toda a minha vida. Fiquei tão empolgado que vou cair de cara, em breve, nos próximos volumes da série – O retrato e o Arquipélago com devoção cristã. Portanto, aguarde notícias. E por que gostei tanto do primeiro tomo de O continente? Ora, porque o escritor gaúcho é formidável e já arrisco dizer aqui que muito melhor do que o filho Luís Fernando Veríssimo, personalidade badaladíssima das novas gerações.

A primeira coisa que me chamou atenção no trabalho foi o texto cinematográfico do escritor, que nos conduzi dentro de uma levada em espiral contagiante. Sabe aquela sensação de comer uma coisa gostosa e não querer mais parar de se saciar? Pois bem, foi essa sensação que sentir ao ler o livro, me deliciando com uma página após a outra. Não queria parar de ler e quando a leitura tinha que ser interrompida eu me irritava.

Depois vem a força dos personagens, construídos com uma sinceridade realista apaixonante. Um deles é o charmoso capitão Rodrigo, como disse aqui, um das personas masculinas mais cativantes que tive o prazer de conhecer na literatura. “Vosmecê é das Arábias, capitão!”, gosta de dizer sempre o Pe. Lara, grande amigo do forasteiro que, com simpatia e estilo fanfarrão, conquistou a atenção dos moradores da Vila de Santa Fé. Até mesmo do cismado e turrão Pe. Lara.

Aliás, assim como o pessimista médico Bernard Rieux, protagonista de A peste, de Albert Camus, O tempo e o ventoo Pe. Lara de Érico Veríssimo, com seu pragmatismo cristão representa a razão do universo gauchesco criado pelo escritor. Os diálogos cheios de filosofia, sensibilidade e verdade entre os dois amigos representam um dos melhores momentos do livro.

“Mas o mundo não é o que a gente quer. É o que é”, comenta o religioso em tom de conselho ao amigo militar.

O romance entre o atirado Rodrigo Cambará e a recatada e sonhadora Bibiana, linda como a minha estrela na manhã e da noite, nas descrições líricas do escritor, nos faz perder a noção do tempo, de tão belo que é. Uma pena que o desfecho dessa inebriante história de amor não tem final feliz.

Contudo, um dos principais méritos de O tempo e o vento está em sua grandeza narrativa que se propõe romancear a história de um povo, a história de um lugar. Daí a importância do aspecto sócio-antropológico presentes na trama. Ele surge tanto politicamente, com a sangrenta luta entre os restauradores – que desejam a volta de D. Pedro I ao trono – e os restauradores – que se oponha a estes, quanto na crônica da chegada dos imigrantes alemães à região. O choque cultural entre os dois povos é retratado com humor por Veríssimo, um observador atento.

“E na véspera do Natal de 1833 os que passaram à noite pela casa de Schultz tinham visto na sala da frente uma pequena árvore toda coberta de flocos de algodão e cheia de velas acesas. Dizia-se que Hans, com barbas postiças de algodão e metido num camisolão vermelho, trouxera presentes para os filhos dentro de um saco”, escreve o escritor, meio que dando pistas da origem no Brasil de uma das datas festivas mais importantes do nosso calendário. “Aos poucos as coisas se explicaram. Aquele era um costume alemão: o velhinho barbudo chamava-se Weihnachtsmann e o Menino Jesus era conhecido na Alemanha como Christkind”, detalha.

* Este texto foi escrito ao som de: A sétima efervescência (Júpiter Maçã – 1997)

Júpiter Maçã - A sétima efervescência

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