Os vilões que adoramos odiar

Talvez o Coringa de Heath Ledger seja o mais incômodo dos psicopatas já criados pelo cinema

Talvez o Coringa de Heath Ledger seja o mais incômodo dos psicopatas já criados pelo cinema

Se você alguma vez na vida já ficou incomodado com algum vilão que viu no cinema, no teatro ou na televisão, então é porque o ator que encarnou o papel é formidável. Pelo menos naquele momento em que ele é a pura, crassa e hedionda encarnação do mal. A regra é clara meu chapa, tanto no cinema quanto na televisão, no teatro ou na literatura, não existe uma boa história sem um bom violão e muitos desses sujeitos até adoramos a odiar, como é o caso do personagem Félix, vivido pelo ótimo ator Mateus Solano, em Amor à vida, da tevê Globo. E olha que ultimamente nem vejo mais novela, mas confesso que, vez ou outra, quando ninguém está olhando, eu dou uma paradinha no que estou fazendo só para conferir os chiliques do cara que são hilários.

“Gente boazinha demais me cansa”, diz o seu personagem, dono dos bordões mais hilários da televisão brasileira. “Você nem imagina a gracinha de pessoa que eu sou”, costuma dizer ele todo dissimulado e cínico.

Bem, motivado pelo Arquivo N de ontem da GloboNews, que destacou os grandes vilões da história da emissora carioca, resolvi escrever aqui sobre alguns dos antagonistas que me marcaram no cinema, no teatro, na literatura, e claro, na televisão. E começo com duas víboras da teledramaturgia brasileira que são deliciosos fantamas da minha infância. Um é o maldoso e sádico Aristide Ferreira, o Barão de Araruna, em atuação inesquecível de Rubens de Falco na novela, Sinhá Moça (1986). O outro a indecente e irritante Odete Roitman, vivido pela espetacular Beatriz Segall na novela da minha vida, Vale tudo (1988). Até hoje não existe uma personagem tão imponente em sua arte de fazer maldade como ela e olha que gosto também da Perpétua de Tieta, encarnado pela atriz Joana Fomm.

Depois veio o nojento, Vanoli de Que rei sou eu? (1989), com um Jorge Dória impecável e Dorian Grayo recentemente Olavo, criação do ator baiano Wagner Moura para a novela Paraíso tropical (2007), papel que deu visibilidade nacional ao excelente ator. “Na época eu já era pouco conhecido, mas com o papel virei um ator popular”, confessou o ator na época, que criou um vilão simpático, humanizado, dentro de suas contradições mais sórdidas.

No cinema me vem à cabeça o inseguro, terno e conflituoso psicopata Norman Bates, personagem do clássico do suspense, Psicose (1960), de Alfred Hichtcock. Juro que já vi esse clássico do cinema umas quinze vezes e até hoje, do começo ao fim, mesmo sabendo do caráter do personagem, torço por ele.

Outros vilões do cinema inesquecíveis que recordo agora é o Al Capone de Robert De Niro, a inescrupulosa vivida por Anne Baxter em A malvada (1950) e a gosmenta Bruxa Malvada do Oeste do clássico infantil, O mágico de Oz (1939). O xerife implacável do faroeste Os imperdoáveis (1992), Little Bill Daggett, interpretação magnânima do veterano Gene Hackman, é outro que não me sai da cabeça, mas recentemente o espanhol Javier Bardem assombrou os cinéfilos com a persona andrógina Anton Chigurgh, de Onde os fracos não têm vez, o atípico faroeste dos irmãos Ethan e Joel Cohen. Gozado que li o livro do Cormac McCarthy, mas a caracterização do personagem no livro não me deixo com tanto calafrios como a construção do astro espanhol.

Mas alguém aqui pode me dizer se existe um psicopata mais fantástico do que o Coringa personificado pelo ator Heath Ledger em Batman – O cavaleiro das trevas (2008)? Duvido.

No teatro, todos os vilões de Shakespeare são deliciosamente apaixonantes e asquerosos, enquanto que na literatura ainda me assusto com o vaidoso jovem Dorian Gray, de Oscar Wilde, que faz do culto à sua beleza um dos mais mortais dos pecados.

E quem disse que ser mal não é gostoso? Eu pelo menos não me considero um vilão, mas que adoro odiar, isso sim, eu adoro!

* Este texto foi escrito ao som de: Boy (U2 – 1980)

Boy - U2

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