Gravidade (2013)

Inquietações metafísicas no silêncio e no vazio das estrelas

Ousadias narrativas e inquietações metafísicas no silêncio e no vazio das estrelas

Quando a gente pensa que já viu e sentiu tudo no cinema, eis que surge, para surpresa e espanto de todo mundo, o cineasta mexicano Alfonso Cuarón e o seu asfixiante, Gravidade, em cartaz algum tempo na cidade. Confesso que relutei em ver o filme com medo de ser mais uma daquelas viagens espaciais megalomaníacas cheias de firulas visuais e pouco conteúdo narrativo. Nada disso. Bem, se tem uma coisa que sobra em Gravidade é conteúdo, mesmo que a reboque de muito barulheira e pirotecnia visual. Mas aqui, tais excessos até cabem e como cabem e quando você conferir essa ficção científica humanista irá entender a razão.

Tripulantes da espaçonave Explorer, o experiente astronauta Matt Kowalski (George Clooney) tira onda em seu jet pack, surfando, literalmente sobre estrelas, enquanto que a mau-humorada e novata Ryan Stone (Sandra Bullock), se sentido enjoada e irritadiça, tenta fazer os reparos necessários do ônibus espacial. Um terceiro personagem só é visto à distância. “E pensar que ele fez Harvard”, ironiza Kowalski, quando vê seu colega de viagem dando piruetas no nada.

Acontece que a tranquilidade e o silêncio do espaço são quebrados com os destroços de dois satélites russos que se chocam em órbita, restando a todos se abrigarem o mais rápido possível na espaçonave. Em questão de segundos uma tempestade de estilhaços irá mudar a vida de todos para sempre.

Com um toque de suspense, homenagens sutis ao clássico do gênero, 2001: Uma odisseia no espaço do mestre Stanley Kubrick -, e criatividade narrativa associada à grande excelência técnica, Gravidade é um achado no turbilhão de bobagens que o cinema tem produzido Gravidade 2ultimamente. Sobretudo na seara ficção cientifica. Mais ainda pela forma com que o diretor de filmes como Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban se propõe a colocar isso nas telas, a partir de uma fábula espacial sobre a sobrevivência e a incomunicabilidade.

“Eu trabalho num laboratório onde as coisas caem no chão”, reclama a personagem de Sandra Bullock, especificando a natureza estranha e cansada do ambiente em que pisa, ou melhor, flutua.

Desde a impactante sequência sem corte do início, à emocionante cena poética de uma gotícula de lágrima flutuando no espaço, passando pelo momento em que Ryan se escandaliza com os latidos de cães chineses em terra firme, Gravidade demonstra ser um arrombo de produção cinematográfica. A grandiosidade do visual do filme e as interferências sensoriais técnicas são de uma sofisticação rara no gênero, mas me sensibilizou mais as inquietudes metafísicas de Cuarón, longe da profundidade de Kubrick, claro, mesmo assim pertinentes.

Assim, questões universais como o medo da morte e do desconhecido, a dor da perda, o instinto de sobrevivência são vigentes até mesmo no espaço sideral, onde meros sete minutos parecem ser uma eternidade. Preste atenção na sensibilidade existencial dos três minutos finais do filme.

O grisalho mais charmoso do pedaço George Clooney sempre esteve bem no meu conceito no que diz respeito aos papeis que desempenhou no cinema. O mesmo não posso dizer de Sandra Bullock, uma das atrizes mais sem sal que já vi. Dou o meu braço a torcer. Em Gravidade ela é a alma do filme, numa atuação de tirar o fôlego. E não tem nada de metáfora aqui. Não é que a menina dessa vez acertou!

* Este texto foi escrito ao som de: In the court of the Crimson King (1969)

King Crimson

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