Tarde entre mestres da Renascença

Com quase 2 m de altura, "O assassinato de Abel' é de uma virulência visual incômoda...

Com quase 2 m de altura, “O assassinato de Abel’ é de uma virulência visual incômoda…

No último sábado (19) coloquei minhas sobrinhas no carro e fomos para o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Mostra de Cinema Infantil? Que nada. Atrações circenses nos gramados verdes de lá? Também não. Tiramos à tarde toda para ver a exposição Mestres do Renascimento – Obras-Primas Italianas, em cartaz no espaço até janeiro de 2014. Foi no mínimo uma experiência marcante, emocionante, diria. Tudo bem, a menor, de três anos, só queria saber de correr para lá e para cá. Mas a mais velha, de 13, curtiu de montão a oportunidade já que é um assunto que ela está aprendendo na escola.

São quase sessenta obras entre pinturas, esculturas e desenhos dos principais nomes do período artístico talvez mais importante das artes. E estar frente a frente com algumas delas, grande parte criadas quando o Brasil ainda nem tinha sido descoberto pelos portugueses, é mágico. Por isso que, se um dia eu puder escolher viver em algum período histórico, escolheria com certeza a Renascença.

Ungidos pelo signo da igreja católica – quem mandava de fato no pedaço entre os séculos 15 e 16 -, a arte e a estética renascentista tem como tema predominante anjos rechonchudos, madonas alvas com olhares tristonhos ou enigmáticos, santos, a figura unânime de Cristo, enfim, as contradições metafísicas e artistas entre o céu e o inferno.

Não entendo muito de artes plásticas e me sinto frustrado por isso, mas me sensibilizo fácil por aquilo que não compreendendo com a razão e sim, com a emoção dos olhos e do coração. De modo que os traços libidinosos do único Leonardo Da Vinci na exposição, Leda e o cisne (1510 – 1515), por exemplo – uma representação simbólica das influências da Grécia antiga na arte do grande artista – são puro deleite para minha percepção limitada.

MestresÉ de uma sensualidade erótica, hipnotizante até, os contornos da asa do cisne – representando a figura de Zeus – em volta da cintura e coxa calipígia de Leda, esposa de Tíndaro, rei de Esparta. E aqui o tema da traição surge de forma lírica e clássica.

A temática volta à tona também nas telas Morte de Lucrécia (1525 – 1530), de Giovanni Antonio Bazzi (Il Sodoma) e Maddalena (1530 – 1535), de Ticiano. Na primeira, a dramaticidade dos traços de Giovanni Bazzi denuncia o triste e falso fim da incestuosa e adúltera nobre, Lucrécia Borges, na verdade vítima de complicações decorrentes de um parto, aos 39 anos. No segundo, uma versão diferente da prostituta salva do apedrejamento por Cristo, sempre retratada de forma sensual, mas pelo olhar de Ticiano, aos prantos, mortificada de arrependimento e autocomiseração.

Mas nessa primeira visita à exposição Mestres do Renascimento, fiquei impressionado mesmo foi com o tom sombrio de duas telas cercadas de simbologias intensas, ambas marcadas pela técnica do claro-escuro. Em São Jerônimo (1550 – 1580), de Jacopo da Ponte (Il Bassano), o santo erudito estudioso da Bíblia aparece quase como uma figura barroca dentro de uma sinistra caverna. Pelo chão, objetos que rementem à morte e ao tempo, como uma macabra caveira e uma ampulheta.

Com quase 2m de altura, não há como passar despercebido da virulência sufocante da imagem da tela Assassinato de Abel (1550 – 1555), de Jacopo Robusti, o Tintoretto. A concepção da luz e do espaço dentro de uma perspectiva dramática da passagem bíblica que estamos careca de saber é surpreendente.

Entre uma obra e outra uma dúvida pairou sobre minha confusa cabeça. Seria a tela, Cabeça da virgem (1518 – 1520), de Rafael, inspiração para o holandês Johannes Vermeer para a sua deslumbrante, Moça com brinco de pérola? Acho que não… Ou talvez sim…

Bem, fui embora do CCBB com vergonha de não poder explicar a exposição direito para as minhas sobrinhas, mas orgulhoso e feliz da vida de ter levado as gurias ao encontro de grandes mestres da arte. Fiz a minha parte.

* Este texto foi escrito ao som de: Faust (1971)

Faust

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