Jukebox Sentimental – Flores

Com letra de Sérgio Britto, "Flores" talvez seja uma canção que fale da possibilidade da salvação pela dor

“Flores”, dos Titãs, talvez seja uma canção que fale da possibilidade da salvação pela dor

E no princípio eram apenas os Beatles no meu horizonte musical e nas minhas ondas sonoras do coração. Foi um amigo querido que hoje, lamentavelmente, não está mais entre nós, o Fernando, que morreu afogado lá pelas bandas de Ilhéus, quem me abriu a mente para o rock nacional. A porta de entrada, ou seja, a porta da percepção para esse novo caminho seria a Legião Urbana e as letras cultas de Renato Russo, mas depois vieram os Engenheiros do Hawaii, os Paralamas do Sucesso, o Kid Abelha, o Lulu Santos e os Titãs, cujo primeiro disco que ouvi foi Õ blésq blow, trabalho de 1989 que foi um marco na carreira da banda paulista.

Recheado de hits, o álbum é uma obra-prima e me apaixonei logo de cara pelo riff stoneano de Flores, uma sugestão, veja você, do baterista Charles Gavin. A canção elétrica, agitada, tem como tema a morte e suas sutis e fúnebres variáveis. “A dor vai curar essas lástimas/O soro tem gosto de lágrimas/As flores tem cheiro de morte/(…) as flores de plásticos de morrem”, diz o refrão.

Curiosamente, sempre achei que o poeta Arnaldo Antunes, um dos meus compositores prediletos dos Titãs, com seu estilo concretista, fosse o autor da letra, mas coube ao tecladista Sérgio Britto a autoria dessa letra cinza, com arranjo floral de dia dos finados. “As flores de plásticos” que “não morrem”, aquelas dos cemitérios, segundo Britto, seria a metáfora perfeita da superação da arte sobre o próprio autor, com a interpretação de que aquilo que não é orgânico, assim como as flores de plásticos, é imortal.

FloresIncrível a sutileza com que os versos da canção falam do universo deste momento triste de nossa vida, como os olhos cansados diante do espelho do caixão e as flores despedaçadas no canteiro de uma sepultura. Contudo, é a referência do suicídio o clímax da faixa que traz um baixo eletrizante e o solo de sax de Paulo Miklos de arrepiar os cabelos dos braços.

“Os punhos e os pulos cortados/E o resto do meu corpo inteiro”, diz o trecho macabro.

De tão enigmática e plástica, com suas imagens concretistas do tema, a letra de Flores chega a ser difícil de ser interpretada numa primeira investigação sonora. Mas logo ficamos familiarizados com a proposta da faixa, uma das mais pulsantes do rock brasileiro, com sua dramaticidade pop da morte na voz de Branco Mello.

Aliás, nesse sentindo, Flores tem uma simbologia triste para mim porque sempre que a ouço me lembro do meu amigo Fernando, aquele que me fez gostar de rock em português. Não sei se é uma associação boa, mas é a referência que tenho e que me faz sentir mais próximo do meu amigo. E não só isso. Hoje mesmo levei minha mãe a um velório e vim cantando os versos no caminho de volta para casa. Mais especificamente o trecho: “A dor vai fechar esses cortes”.

Talvez seja isso, Flores pode ser uma tentativa de falar da possibilidade da salvação pela dor.

* Este texto foi escrito ao som de: Õ blesq blow (Titãs – 1989) 

O blesq blow

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