Serra Pelada (2013)

Júlio Andrade (de joelhos) e Juliano Cazarré, enfeitiçado pela cobiça do ouro em drama aventuresco de Heitor Dhalia

Júlio Andrade (esq.) e Juliano Cazarré, enfeitiçado pela cobiça do ouro em drama de Heitor Dhalia

Eu conheço de perto Serra Pelada. Mas não a Serra Pelada mítica, aquela que habita o imaginário coletivo de milhares pessoas, com a imagem bíblica de homens-formigas carregando sacos de terra na cabeça e escalando escadas rudimentares dentro de uma vala gigante. A Serra Pelada que conheço é a imagem do caos, abandono e da impunidade. Lá, os trabalhadores que há trinta anos sonharam “bamburrar” achando pepitas milionárias de ouro, hoje são almas amarguradas por terem perdidos, parte de suas vidas, dinheiro, saúde e a maioria deles, até a família. Trata-se da maldição da cobiça em torno do vil metal e esse outro lado você não verá no mais novo filme de Heitor Dhalia (Nina e O cheiro do ralo), Serra Pelada, em cartaz a partir de hoje nos cinemas.

Uma produção do cineasta em parceria com o ator Wagner Moura, o projeto traz uma versão romanceada e um tanto quanto aventuresca demais, digamos assim, desse universo particular de um Brasil distante a partir da história de Juliano (Juliano Cazarré) e Joaquim (Júlio Andrade). Na trama, eles são amigos de infância que selam pacto de irmão partindo para o coração das trevas no meio da selva amazônica paraense.

“Não, eu vou achar é ouro. Esse menino vai ser rico”, diz Joaquim à mulher barriguda, ele um professor desempregado cheio de ideias esquerdistas na cabeça e o peito carregado de esperança.

Serra Pelada 2Mas a realidade lá é bem mais pavorosa e barra pesada do que a fantasia que ambos criaram de enricar fácil e logo a dupla de aventureiros se vê metida em encrencas macabras que envolvem contrabando de ouro, drogas e armas. O clima de bang bang está instalado no ar e todos querem ser o dono do pedaço.  “Esse lugar aqui piora a gente”, constata um dos dois, desfazendo a parceria quase que de sangue.

Mega produção, Serra Pelada é muito bem dirigido, contextualizando o espectador do que um dia foi aquele lugar, com registros documentais de impacto, como mostra os noticiários da época do Jornal Nacional, enxertados na narrativa. Com uma pegada no estilo Cidade de Deus e Tropa de elite, um narrador onisciente e onipresente debulha com maestria o funcionamento social no garimpo, onde mais de 100 mil trabalhadores, espremidos em cerca de 300 barrancos, construíram uma pirâmide de cabeça para baixo no meio do nada. E não só isso, a ganância de muitos que competia com doenças com a malária e a epidemia da AIDS.

O realismo da imensa cava repleta desses escravos da cobiça, filmada numa área de mineração no interior de São Paulo – já que a equipe não teve autorização da Vale do Rio Doce para filmar no verdadeiro cenário da história -, é de tirar o fôlego, mas os excessos hollywoodianos do roteiro macula um pouco a credibilidade do que de fato aconteceu. Totalmente desnecessário, por exemplo, a referência gratuita ao O poderoso chefão, com a máfia do ouro jantando à beira de um daqueles rios que parecem cheios de anacondas. Mas o que é o cinema senão a arte dos excessos e dos exageros.

Fora esses pormenores eu destaco aqui algumas atuações nesse bom filme, em especial a do ator “brasiliense” Juliano Cazarré e, sobretudo, do ator gaúcho Júlio Andrade que, desde sua atuação especial em O homem que copiava, de Jorge Furtado, evoluiu muito e bota muito nisso. De tão relevante ofuscam a aparição de veteranos como Wagner Moura e Matheus Nachtergaele. Salve a nova geração de atores.

* Este texto foi escrito ao som de: 20 super sucessos de Odair José (2004)

Odair José

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