O tempo e o vento – O continente vol. 1

O Escritor Érico Veríssimo foi uma verdadeiro artesão das palavras ao escrever essa trilogia

O Escritor Érico Veríssimo foi uma verdadeiro artesão das palavras ao escrever essa trilogia

O que me deixa indignado quando se fala de escritores brasileiros no exterior é que os nomes que sempre aparecem, seja em listas acadêmicas, de livrarias ou no inconsciente coletivo das pessoas, são os mesmos, ou seja, Jorge Amado e… Paulo Coelho. Jorge Amado até vai lá, mas o autor de O alquimista se justifica apenas pela quantidade de livros vendidos e não pela qualidade.

Então fico pensando e o Érico Veríssimo nessa história toda? E olha que o cara viveu um bom tempo no exterior, lecionou inclusive em Berkeley, nos Estados Unidos, onde também foi diretor de assuntos culturais na União Pan-Americana. Sem falar, claro, que e o escritor gaúcho é autor de livros maravilhosos, entre eles aqueles que compõem a monumental trilogia sobre o surgimento do Rio Grande do Sul, O tempo e o vento, que finalmente tomei coragem de tirar da minha estante mágica e ler o primeiro tomo, O continente, volume 1.

E aqui abro parêntese para falar uma coisa. O lance com a minha estante mágica é que a maioria dos grandes clássicos e livros raros de autores consagrados que tenho ali é que os guardo para ler na minha velhice, quando eu tiver tempo de sobra para me dedicar, exclusivamente à leitura literária e não dividir o espetáculo da minha solidão com ninguém.

De qualquer forma, antecipei a leitura da saga O tempo e o vento Veríssimo 2motivado pela recente adaptação de Jayme Monjardim para o cinema. E olha que o filme nem é grande coisa assim, e sim, a minissérie dos anos 80, com Tarcísio Meira e tudo o mais. Mas quer saber? Bom mesmo é o livro. E olha que estou apenas na primeira parte de O continente, trecho do épico mais adaptado, sobretudo, para os cinemas.

Lançado em 1949, O continente versa sobre o surgimento dos primeiros personagens dessa aventura gauchesca, o velho Turrão Maneco Terra, o confuso jesuíta Alonzo, o enigmático menino índio, Pedro, a fogosa Ana Terra, o intolerante Licurgo, a velha Bibiana e um certo capitão Rodrigo, talvez uma das figuras masculinas mais apaixonantes da literatura brasileira. O que é fascinante na obra do autor para mim é a narrativo cinematográfica do escritor, com suas tramas e subtramas repleta de reviravolta.

E os diálogos são primorosos dentro dessa eloquência seminal de um povo e de um lugar que surgiu marcado pelo signo das guerras, da morte e da cruz. “Vivo com o estômago embrulhado. O cheiro de sangue e de defunto não me sai das ventas. Sinto-o na água, na comida, na mão, no vento, em tudo”, diz um personagem secundário de um dos capítulos intitulado Sobrado. “Acho que vassuncê pode estar procedendo bem como chefe político, mas está procedendo mal como chefe de família”, pondera em tom de conselho patriarca de uma das gerações dos Terra, exilados no tão afamado sobrado.

Mas a fala que me deixou arrepiado e que sintetiza a essência de toda a obra foi a da sábia velha Bibiana. Solitária e delirante em seu quarto sombrio e triste ela resmunga com seus fantasmas em certa hora. “Bem dizia a minha avó. Noite de ventos, noite dos mortos”.

Quando teve a ideia para escrever O tempo e o vento Érico Veríssimo tinha apenas 30 anos e só deu início ao projeto 12 anos depois. Talvez porque, como um grande artesão das palavras que era, deve ter entendido que as histórias devem maturar antes de ser escritas, como bem descreveu o crítico literário, José Castello. Ou seja, que cada história tem o tempo certo para serem espalhadas pelo vento.

* Este texto foi escrito ao som de: Gaita ponto (Renato Borghetti – 1984)

Borghetti

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