Amizades e amores de Patti Smith

Patti Smith Sam Sherpard de namorico nos anos 60, quando ele se chamava Slim Shadow

Patti de namorico com Sam Sherpard, na época em que ele tocava bateria e se chamava Slim Shadow

Terminei de ler outro dia a inusitada história de amizade e amor entre a poeta, escritora, performancer e roqueira Patti Smith com o fotógrafo sadomasoquista Robert Mapplethorpe. Lançado no Brasil pela Companhia das Letras, Só garotos revela como a relação entre esses dois artistas da recente cena nova-iorquina foi conturbada, mas também marcada por sinceridade e respeito mútuo tanto profissional quanto afetivo.

“Ele era charmoso e tímido, com uma natureza meticulosa. Refreava, desde muito novo, uma agitação e o desejo de agitar”, escreve a autora logo nas primeiras páginas.

Contudo, embora a história dos dois seja interessante, o que mais me despertou a atenção foi a condição de espectadora privilegiada de Patti Smith na efervescente cena cultural dos anos 60 e 70, onde foi amiga e, em alguns casos, muito mais do que isso de personagens incríveis da música, do teatro e das artes plásticas.

Pouco antes de morrer, por exemplo, Jimi Hendrix revelou à autora, então uma jovem sem rumo e nem muitos planos na vida, sobre a vontade que tinha de criar uma linguagem universal reunindo músicos de várias partes do planeta.

“A linguagem da paz, saca?”, disse o guitarrista, em pé, na escada de seu estúdio. Poucos meses depois, em viagem à Paris com a irmã, Smith leria chocada a manchete de um jornal que dizia: “Jimi Hendrix est mort. 27 ans”.

Certa noite, depois de ver e ouvir Janis Joplin chorar nos Só garotosombros de um amigo por mais uma noite de abandono, Patti Smith levou a cantora bêbada para casa. Tocada pelo espírito da comiseração, escreveria os versos de uma canção que nunca seria gravada pela roqueira rebelde, de voz rouca e alma frágil. A letra narrava a sina de uma garota famosa e feia que sempre terminava as noites de agitação e festa sozinha. “Essa sou eu, cara. É a minha música”, diria uma Janis Joplin atolada em tristeza.

Noutra ocasião, conheceu e se encantou com o baterista de uma banda obscura de rock chamada Holy Modal Rounders. Slim Shadow, segundo descrição de Patti Smith, tinha uma risada contagiante e era vigoroso, inteligente e intuitivo. “Na minha cabeça, ele era o cara com a boca de caubói”, revela em certo trecho.

Só depois de vários passeios noturnos e jantares regados à muito vinho branco e lagosta é que ela fora descobrir que o sujeito em questão era o dramaturgo Sam Sherpard, um dos maiores nomes do teatro alternativo nova-iorquino lhe pregando uma boa peça. Os dois ficariam juntos um bom tempo, cada qual alimentando a arte um do outro com dicas, críticas desafiadoras e elogios ternos.

Mas a melhor parte dessas histórias divertidas sobre Patti Smith narradas por ela mesma, são os bastidores da gravação de seu primeiro disco, Horses, registro que viria a ser o precursor do movimento punk. A descrição de como sua versão para a empolgante Gloria, de Van Morrison, foi ganhando força e corpo a cada apresentação é vibrante, assim como os detalhes de sua amizade com o líder do Television, Tom Verlaine.

“São muitas as coisas de que me lembro dessa época. Do cheiro de mijo e cerveja. Das frases entrelaçadas de guitarras de Richard Lloyd e Tom Verlaine ao tocarem ‘Kindom come’”, descreve, com saudade apaixonante.

Para algumas pessoas, a vida, de tão eletrizante e agitada, parecer ser bem curta.

* Este texto foi escrito ao som de: Are you experience? (Jimi Hendrix – 1967)

Jimi

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