Tess – Uma lição de vida (1979)

A linda Nastassia Kinski e a sensual cena dos morangos...

A linda Nastassia Kinski e a sensual cena dos morangos…

Mesmo os fissionados pelo trabalho do diretor franco-polonês Roman Polanski pode tomar um susto ao ver pela primeira vez o drama clássico, Tess ­– Uma lição de vida. Completamente diferente e atípico de tudo o que ele fizera até então nos cinemas, a fita, de uma fotografia exuberante, no que diz respeito à plasticidade, é uma espécie de Barry Lyndon do cineasta. De tão clássica que é a obra nem parece um legítimo Polanski.

Baseado no livro Tess de d’Urbevilles, do romancista vitoriano Thomas Hardy (1840 – 1928), o filme, assim como Macbeth (1971), meio que surge como uma terapia freudiana pessoal diante dos episódios recentes na vida de Polanski, acusado de ter estuprado uma menina de 13 anos nos Estados Unidos. Aliás, desde o fato que ele não punha os pés na América. Daí a cena em que sugere que a personagem-título tenha sido violentada, parece num misto de trauma inconsciente e provocação.

Por ironia do destino, fora a mulher Sharon Tate quem lhe apresentou o autor inglês e sua obra. A linda atriz acreditava que o papel da pobre Tess era uma uva para ela desempenhar nas telonas. Na falta de Tate, brutalmente assassinada pela gangue de Charles Manson, Polanski deu o papel para a jovem e encantadora atriz alemã, Nastassia Kinski, filha do grande ator Klaus Kinski. Bem, ao assistir esse drama vitoriano percebemos o quanto ele acertara.

Tess 3Na trama, o pai de Tess, um camponês preguiçoso e interesseiro, descobre que sua família descende de nobre dinastia, os d’Urbevilles. Tentando tirar proveito da situação, faz a filha ir até a mansão dos parentes reivindicar o título, mas as coisas não saem como esperadas. Primeiro porque ela e abusada pelo “primo” Alec (Leigh Lawson). Depois porque ao engravidar, ela sente o desprezo pelos moradores da vida, do padre e até da família. Mais tarde, ao se apaixonar pelo bondoso Angel Clare (Peter Firth), passa a ser desprezada por ele também por conta de seu passado “sujo”.

“Devemos manter as aparências”, diz ele sem esconder sua nojenta hipocrisia.

Publicação polêmica, quando lançada em 1891, o livro faz uma crítica feroz à sociedade machista da época, com sua denúncia escancarada sobre a violência opressiva contra as mulheres. “As vítimas são sempre as vítimas. Essa é a lei”, se desespera nossa triste heroína diante de um de seus algozes.

Esses ingredientes sociais, assim como a contundente radiografia da vida agrícola no século 19, são assimilados de forma elegante e sutil por Polanski numa narrativa lenta que tem o tempo que o cinema tem que ter. Uma coisa, diga-se de passagem, que as pessoas andam se esquecendo de perceber, ultimamente, quando vão ao cinema.

De tão pictóricas que são algumas passagens de Tess, algumas cenas parecem telas em movimento, como aquela em que o Sol da noite insiste em espreitar, timidamente, por entre as folhas. O característico romantismo belle époque dos folhetins surgem em dois momentos mágicos. Num deles, na provocante e sensual cena do morango, com direito aos lábios de rubis de Nastassia Kinski como protagonista. No outro, na linda sequência em que o gentil Angel atravessa quatro damas no colo para que elas não molhem o vestido.

“Carreguei as outras três só por sua causa”, diz ele, a uma relutante, Tess, numa das declarações de amor mais singela já feita no cinema. Coisas que só poderiam ouvir num filme de Roman Polanski.

* Este texto foi escrito ao som de: S. F. Sorrow (The Pretty Things – 1968)

sfsorrow

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