Jukebox Sentimental – To the end

Poucas vezes o passado soou tão moderno em Parklife, do Blur

Poucas vezes o passado soou tão moderno em Parklife, do Blur

A imagem e o som do Blur estão intrinsecamente associados aos meus dias de faculdade, época em que o movimento britpop estava na crista da onda em todo o mundo, nas rádios e tevê, e a banda um dos principais estandartes dessa corrente. E, mesmo que eu achasse os irmãos Gallagher mais intensos e formidáveis, com aquela arrogância de papelão quase gratuita, devo admitir que Damon Albarn e Cia eram mais sofisticado musicalmente.

Sim, porque assim como o Oasis, eles agregavam à sua cosmologia musical, sons retros tendo como referências grandes ícones da música britânica (Beatles, The Who, Kinks), mas apimentavam esse caldeirão de influência com certo toque de modernidade. Daí o fato das músicas dos meninos de Manchester bater diretamente em nosso âmago, enquanto que com o Blur a gente demorava um pouco assimilar o que ouvia.

Lançado em 1994, mesmo ano que Definitely maybe (Oasis), Parklife, o mais importante e celebrado disco do Blur, agrega todas as receitas acima e por isso mesmo até hoje é o trabalho dos meninos que mais toca em minha Jukebox Sentimental. Ora com clima circense no ar, ora com autênticos ruídos pop britânicos soando aqui e acolá, as músicas vão surgindo, uma a uma, como radiografias do cotidiano inglês, todas cintilando o famigerado cinismo dos Kinks. Que ver?

“Ela diz que há formigas no tapete/Monstrinhos sujos/Comendo todos os restos/Pegando o lixo”, começa a gostosa narrativa da melancólica, End o f a century, um das minhas preferidas. “Todos dizemos ‘Não queremos ficar sozinho’/Usamos as mesmas roupas por nos sentirmos do mesmo jeito/ Beijamos com lábios secos, ao darmos boa noite / Fim de um século, não é da especial”, arremata, com ironia, os dissabores de um relacionamento “mais do mesmo”.Parklife

O tom tristonho perpassa ainda a pesada Badhead e a contemplativa This is a low talvez seja uma das baladas mais belas escritas pela banda. Na dançante London loves, os maneirismos de uma Londres fútil e efervescente explodem nos versos debochados: “Londres ama/O mistério de um carro potente/Londres ama/O mistério de um coração acelerado/Londres ama/O jeito que as pessoas caem/Londres ama/O jeito que você não abraça uma oportunidade”, diz o refrão.

Como se vê, difícil escolher a faixa mais tocante em meio a tanto sucessos consistentes. Contudo, a canção de Parklife que mais me sensibiliza, até pelo toque cafona, é a “francesinha” To the end, com seus versos entrecortados por fraseados em francês ditos pelo guitarrista Graham Coxon.

“Bem, você e eu/Apaixonados/E parece que poderíamos ter feito isto/Sim, parece que teríamos feito isto até o fim”, diz o refrão apaixonante.

Bom, para quem me conhece, sabe que as bandas britânicas mexem mais fundo em meu coração e com o Blur não seria diferente. Até o fim dos séculos vou tocar este disco em minha Jukebox Sentimental. Acredite meu chapa, poucas vezes o passado soou tão moderno.

* Este texto foi escrito ao som de: Parklife (Blur – 1994)

Blur 3

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