Jukebox Sentimental – Astral Weeks

Com seu folk jazzísitico sofisticado, o irlandês Van Morrison se mostrou à  frente do bardo Bob Dylan

Com seu folk jazzísitico sofisticado, o irlandês Van Morrison se mostrou à frente do bardo Bob Dylan

Pedro que amava Amanda que não amava ninguém. Assim começava o roteiro de um curta que escrevi como projeto final do curso de Comunicação Social. Isso há muito e muito tempo atrás, quando eu não tinha barba branca ainda e muita paciência para tolerar a mediocridade humana. Hoje, trago à tona essas lembranças com cheiro de terra molhada, umedecida pela chuva da saudade banhando minha alma tristonha.

Pedro que amava Amanda que não amava ninguém e a cena de abertura mostrava nosso jovem em agonia, correndo desesperado pelo Eixão Sul, ao som da balada folk, Astral Weeks, de Van Morrison. A câmera, em movimento lento, pontuado por cortes abruptos na montagem (final cut), focava um céu cinza como segundo plano e a longa e larga via símbolo da cidade, deserta, como destaque, sublinhada, sonoramente, pelos acordes hipnotizantes da canção título de abertura do disco do artista irlandês gravado em 1968.

A escolha da canção de Morrison foi natural porque é um registro que segue num fluxo narrativo envolvente, meio beatnik – se é que vocês me entendem -, cadenciado por ritmo sensorial, fazendo com que sentimos em transe, em sintonia com os rompantes frenéticos do personagem central da trama.  O desfecho dessa história seria melancólico, diria que trágico, ao contrário da simbologia que remete à figura de Fênix, na canção.

Van Morrison 3“Conseguirias me encontrar?/Beijaria meus olhos?/Para repousar e silêncio e calma”, diz um dos trechos da letra poética de Morrison. “Para nascer de novo”, arrematar com o refrão poderoso.

O caminho das pedras que me levaram a Van Morrison, até pelo estilo musical e letras complexas, reverberou na cosmologia do bardo Bob Dylan, mas logo percebi que o cantor e compositor irlandês era bem mais sofisticado e introspectivo do que o autor de Blowin’ in the Wind. Confuso e romântico, Astral weeks, tido como um dos trabalhos mais notáveis do artista é, volta e meia, citado em listas de discos importantes da história do rock.

Quando desembarcou em Nova Iorque, acompanhado de um grupo talentoso de músicos de jazz, Morrison não orientou a turma sobre os arranjos das canções, nem o significado das letras de suas composições pessoais. Norteado por improvisos instrumentais e tempero jazzístico que caminha, vez ou outra entre a linha tênue do blues, o álbum nos conduz por uma deliciosa trilha sonora repleta de temas idiossincráticos inerentes ao universo de Morrison como mostra a apaixonada, Sweet thing, a caricata, Madame George – sobre uma drag Queen famosa pelas ruas de Belfast – e a figurativa e singela, Ballerina.

“Fiquei muito feliz com o álbum. Acho que ficou bem próximo do tipo de música que eu queria fazer”, declarou Morrison, numa entrevista de 1972.

Astral weeks, com certeza, está entre os discos prediletos da minha jukebox sentimental e Van Morrison, com seu lirismo evasivo, estilo inconfundível e original, uma referência para lá de emblemática dentro das minhas aspirações literária. Se é que tenho alguma. “É uma dessas canções em que você pode ver a luz no fim do túnel”, disse certa vez o artista, sobre sua criança.

Para mim, todas às vezes que ouço Astral weeks, me lembro do plot do único roteiro cinematográfico que escrevi na vida. “Pedro que ama Amanda que não ama ninguém”.

* Este texto foi escrito ao som de: Astral Weeks (Van Morrison – 1968)

Astral week

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