O sol de sábado nas bancas de revistas

Aprendi a gostar de leitura com Monteiro Lobato e essa turma aí

Aprendi a gostar de leitura com Monteiro Lobato e essa formidável turma aí

Sábados não eram apenas dias santos, mas um estado de espírito mágico materializado em nossas visitas à banca de revista mais próxima de casa naqueles passeios matinais com papai. A parada obrigatória era a banca de revista do bairro onde ele saia com seu jornal debaixo do braço, enquanto que eu e meu irmão gêmeo nos deliciávamos com os gibis de nossa predileção que ele comprava. E assim, mês a mês, nossa coleção ia aumentando consideravelmente.

Digam o que quiserem sobre os malefícios da leitura de quadrinhos, da má influência de Walt Disney sobre várias gerações, mas o fato é que, bem antes de Monteiro Lobato e coisas do gênero, aprendi a gostar de ler mesmo foi com Pato Donald e o Mickey Mouse, Tio Patinhas e os seus sobrinhos, com a turma da Luluzinha e claro, com o Maurício de Sousa e seus personagens marcantes.

E dos gibis da turma da Disney, da Luluzinha e da Mônica para os livros de Monteiro Lobato e outros clássicos da literatura infanto-juvenil como Alice no país das maravilhas, O pequeno príncipe, O menino do dedo verde, Meu pé de laranja-lima, entre outros, foi um pulo. Contudo, ainda perduram em algum lugar de minhas recordações infanto-juvenis, aquelas tardes gostosas de sábado e domingo com cheiro de café quente e petas da minha mãe, misturados com as páginas surradas dos meus gibis. Pilhas e mais pilhas de gibis que não sei onde foram parar depois.

Fragmentos de algumas dessas leituras até hoje pairam em meu inconsciente fosse pelo forte caráter social, político ou existencial, embora na época eu estivesse longe de saber o que significava essas coisas todas. Não me esqueço, por exemplo, de uma crítica à ganância e ao capitalismo desenfreado num episódio em que, na medida em que o Pato Donald ia subindo de Capitão Américastatus numa empresa, seu espaço no estacionamento acompanhava o bem sucedido desempenho profissional dele, simbolizado pelo materialismo. Assim, logo, logo aquela reles e sucateada bicicleta de entregador que ele pedalava no início da história, para cima e para baixo, era substituída por um carro luxuoso.

Numa história do Maurício de Sousa, um personagem vive em agonia com o latente medo de tudo que sente. De não conseguir emprego, de andar sozinho pela rua, de não conseguir ser alguém na vida, de ficar doente, enfim, de morrer. Um dia, a Morte, em osso puro, lhe faz uma visita e o leva embora para o além-mundo e lá está ele a sete palmos do chão, para desespero da Senhora Foice, reclamando do medo de ressuscitar. E olha que estamos falando de um singelo quadrinho de Maurício de Sousa.

Mais tarde veio a fase dos super-heróis e era um tal de barganhar gibis do Homem-Aranha, Super-Homem, Capitão América, Hulk, Homem de Ferro, e claro, Batman, meu preferido, com os colegas do colégio.

Lembro que dessa fase o maior ato de rebeldia ou coragem que cometi foi chegar em casa um dia com uma revista do Conan, o Bárbaro enrolada sorrateiramente debaixo da camisa. Tudo isso para a coroa não se assustar com os traços sensuais de Robert E. Howard e as musas do crimeriano cheias de desejos.

Nos últimos anos, motivado por experiências amorosas frustradas e momentos familiares mágicos, tenho me dedicado, não sei por que, com mais afinco, à leitura de clássicos como Calvin e Hobbes, Snoopy, Tintim e Malfada.

Bom, não sou um expert no assunto, mas tenho uma memória afetiva cativante sobre os meus tempos de leitura de quadrinhos. Um momento mágico que tenho saudade em dias de sábado como o de hoje.

* Este texto foi escrito ao som de: Roadmaster (Gene Clark – 1972)

Gene Clark

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