Quase o Crocodilo Dundee em Serra Pelada

Imagens bíblicas do formigueiro humano no auge do garimpo

Imagens bíblicas do formigueiro humano no auge do garimpo

Preconceito é algo horrível, hediondo. Anos atrás, quando tive que fazer uma viagem a Belém, pensei que quando descesse do avião ia me deparar com uma manada de búfalos me recepcionando, esquivar-me de petardos de zarabatanas indígenas e correr bastante de alguma anaconda que atravessasse o meu caminho. Tudo bobagem, fantasias de quem assistiu muito as aventuras de Indiana Jones ou Crocodilo Dundee. Belém é uma das cidades mais belas do país com sua cultura exótica e a simpatia do povo daquela região é contagiante.

Outro dia, a trabalho, voltei ao estado, saindo lá em Serra Pelada, o mítico garimpo a céu aberto que, nos anos 80, chamou atenção de milhares de pessoas no Brasil e no mundo com aquela imagem bíblica de um verdadeiro formigueiro humano na corrida pelo ouro. Até os Trapalhões, que não eram bobos nem nada, tiraram proveito da situação rodando um filme de sucesso lá em 1982.

A corrida febril nessa Eldorado do metal vil despertou ambições doentias e disputas várias em torno da terra, do direito de explorar as jazidas da região, enfim, de um turbilhão de recordações amargas de quem se “bamburrou” da noite para o dia e perdeu tudo o que tinha com a mesma velocidade de um piscar de olhos.

Um desses personagens lendários que conheci pessoalmente na vila de Serra Pelada é José Mariano dos Santos, o Índio, que ao ganhar uma pequena bolada no barranco que tinha no enorme buraco no meio da selva paraense, perdeu toda a fortuna esbanjando com farras e excessos que consistia, entre outras coisas, fretar um avião da extinta TransBrasil só para encontrar uma antiga namorada que andava perdida pela Cidade Maravilhosa.???????????????????????????????

“Com tanto dinheiro assim o cabra analfabeto quer ir atrás de mulher”, conta, sem nenhum remorso de ter perdido tudo.

Hoje, morando numa casa humilde ao lado da 14ª mulher, bastante doente, Índio não tem dinheiro para comprar um maço de cigarro, dependendo da mulher aposentada para tal mimo. “O dinheiro é a raiz de todos os bens e de todos os males”, filosofa o ex-garimpeiro que, assim como milhares de seus pares, sonha em receber uma gorda indenização do governo. “Essa imagem que fazem de Serra Pelada é só fantasma. Muitas pessoas pensam que aqui é uma grande aldeia”, lamenta, em referência à visão romântica e distorcida que muitos fazem do lugar.

Aliás, histórias trágicas assim em Serra Pelada e em cidades que circundam a grande cava de terra que ainda abriga toneladas de ouro são bem comuns, mostrando que o Pará do interior é bem diferente do Pará das capitais e das grandes metrópoles. Nesse primeiro, o clima é de terra de ninguém, onde a lei do mais forte é o do 38, usado muita das vezes em prol dos interesses escusos e das injustiças sociais. Dentro deste contexto, pistoleiro na região é quase uma profissão, com tabela de preço e descrição minuciosa do ofício.

“São R$ 2 mil reais. Arranca a orelha e entrega para o mandante, isso quando é liderança. Se for garimpeiro é só R$ 500, baratinho”, me disse o motorista que me pegou no aeroporto de Marabá, com a naturalidade de quem chupa um chica bon.

Putz, e eu que esqueci meu colete à prova de bala em casa…

* Este texto foi escrito ao som de: 20 supersucessos de Márcio Greyck (1998)

Márcio Greyck 2

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