Só garotos de Patti Smith

Os tresloucados Bob Mapplethorpe e Patti Smith perdidos em Nova York

Os tresloucados junkies Bob Mapplethorpe e Patti Smith perdidos em Nova York

Até hoje eu não me perdoo por deixar de ter comprado, num sebo da cidade, um cd da Patti Smith que estava dando sopa em cima do balcão. E não era um disco qualquer não meu camarada, tratava-se do clássico Horses, um dos álbuns precursores do movimento punk e o pior que eu sabia de tudo isso, inclusive quem era ela e comi mosca. Não me perdoo e ponto final. E quer saber? Não é a primeira vez que isso aconteceu. Anos antes, fiz a mesma coisa com o primeiro disco do Elton John, assim, de bobeira, mas como diria o Billy Wilder, ninguém é perfeito.

Mas enfim, o nariz de cera em cima é para falar que estou lendo Só garotos, livro em que a poetiza e cantora norte-americana lançou há três anos, contando sua história de vida ao lado do visceral fotógrafo Robert Mapplethorpe. Mas calma, ainda não cheguei à fase roqueira dela, nem nos surtos de sadomasoquismo gay de Bob, flanando bem no início da trajetória de ambos e vou contar para vocês: que começo impactante.

Escrito com pegada literária sofisticada que nos faz parecer estarmos diante de um romance cujos personagens centrais são a menina Patti e esse tal de Robert, o livro é cheio de revelações. Para começo de conversa, Patricia Lee Smith, nascida numa segunda-feira, na zona norte de Chicago, numa dia de nevasca braba, em 1946, teve uma infância pobre onde ficava observando a mãe passar roupa sentada na escada de casa e brincava, entre outras coisas, de colecionar vaga-lumes em potes de conservas.

PattiMas desde cedo mostrava ter sensibilidade aguçada já que se interessava na hora das orações, pelos segredos mais íntimos da alma. “De que cor ela é? Eu desconfiava de que a minha alma, travessa, podia fugir enquanto em sonhava e não conseguir mais voltar”, indagava, sem saber direito do que falava. Quando tinha dinheiro, o papel levava os filhos para conhecer museus e a mãe garçonete lhe presenteava com livros sobre arte.

Ao engravidar de um sujeito tão inexperiente quanto ela no assunto, deu a criança para um casal culto de amigos e, no melhor estilo Jack Kerouac, pegou a mochila e botou o pé na estrada, parando em Nova York, uma espécie de Terra Prometida de seu imaginário adolescente. O dinheiro da passagem foi conseguido numa cabine de telefone, depois de surrupiar o dinheiro de uma carteira esquecida.

Aliás, por extinto de sobrevivência, passou a fazer pequenos furtos para alimentar o corpo e alma, como da vez em que levou um livro do poeta e amor platônico, Arthur Rimbaud, de uma banca de revistas da rodoviária da Filadélfia. “Encontrava alívio em Arthur Rimbaud. (…) Ele possuía uma inteligência irreverente que me acendera e tomei-o por um compatriota, um parente e até um amor secreto”, confidencia lá pela página 30.

Os tempos de dureza na Big Apple são narrados com uma sinceridade incômoda, com relatos de seus pernoites em bancos de praças, metrôs e cemitérios, de quando dividia sanduíches de alface com estranhos na rua e fugas de tarados potenciais que lhe pagavam o jantar em troca de algo mais. Foi numa noite de fugas dessas que ela estreitou os laços com um menino chamado Bob, que conheceu quando ele foi comprar uma joia na loja em que ela trabalhava.

“Oi, lembra de mim?”, ela disse. “Claro”, ele respondeu sorrindo.

“Você pode fingir que é meu namorado?”, ela insistiu desesperada. “Claro”, ele devolveu novamente, como se não tivesse se importando com a aparição e o pedido dela.

O resto é história…

* Este texto foi escrito ao som de: Horses (Patti Smith – 1975)

Horses Patti Smith

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