O verão de Skylab da Julie Delpy

Atriz francesa transforma suas memórias da pré-adolescência em tema universal

Atriz francesa cult transforma suas memórias da pré-adolescência em tema universal

O problema de quando acaba um evento como o Festival de Brasília, mesmo com todas as decepções e transtornos como o deste ano, é que fica aquele vazio cinematográfico no ar, enfim, uma solidão entre os cinéfilos angustiantes. Eu, por exemplo, não terei contato mais com a gatinha Amélie Poulain, mas como já dizia a dupla, Mick e Keith, a gente não pode ter tudo o que quer, não é verdade? Explico. Pelo menos a primeira parte.

Fui dar uma conferida nas estreias deste fim de semana por aí e me desanimei. De modo que o filme escolhido de hoje é uma comédia deliciosa que já está em cartaz faz um bom tempo na cidade. E se estiver em cartaz ainda, porque não tenho certeza disso e o enfado foi tão grande que nem tive o trabalho de conferir, vale dois ou três comentários sobre a fita dirigida pela bela, Julie Delpy, a musa de toda uma geração por conta dos sucessos Antes do amanhecer (1995) e Antes do pôr do sol (2004).

Intrinsecamente pessoal, O verão do Skylab tem como esteio as memórias de pré- adolescente da atriz, roteirista e cineasta ao lado da família no interior da França, quando ela e boa parte do clã, acreditava, veja só, naquele ano de 1979, que um pedaço do foguete da Nasa poderia cair em algum lugar da região do país.

Em meio a esse clima pseudoapocalíptico perduram as intrigas familiares, os embates e Skylab 3diferenças políticas entre uns e outros, revelações íntimas bombásticas, enfim, todos aqueles tipos de conflitos morais e recônditos presentes na obra do dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues. Só que aqui visto por um prisma europeu. Ou melhor, pela ótica de uma jovem europeia vivida pela excelente atriz mirim, Lou Alvarez, alter ego, por assim dizer, dessa fase de Julie Delpy.

Naïf, sincera, desajeitada e adorável no seu jeito simples de ser, ela absorve todas essas incongruências da natureza humana de seus pares por um filtro destituído de maldades e preconceitos, provando que o mundo e o olhar das crianças e adolescentes são mais interessantes. Ou seja, como diria aquele principezinho louro criado por Antoine de Saint Exupéry: como são chatos esses adultos.

Madura e totalmente à vontade numa produção doméstica, Julie Delpy encarna aqui a figura da mãe no passado, enquanto que o pai na vida real, uma persona divertidíssima, vive o seu matriarca ficcional, um homem amargurado pelos dilemas político-sociais de seu tempo, mas, por isso mesmo, hoje com a cabeça no mundo da lua.

Impagável a cena de um dos cunhados dessa grande família num idílico encontro, rastejando pelado em busca da cunhada na calada da noite, assim como a inusitada e embaraçosa visita a uma praia de nudismo da jovem “Julie Delpy” que se apaixona por um dos garotos peladão. O momento mágico é aquela festinha entre amigos regada a muito romantismo juvenil e furiosa trilha punk da época.

Despretensioso e verdadeiro, O verão de Skylab de Julie Delpy parte de um enredo pessoal, intimista para falar do universal. Por isso que todos nós que temos uma família numerosa, cheia de criaturas bizarras e irreais que acostumamos nos encontrar naqueles imperdíveis e, muitas vezes infindáveis fins de semana, nos identificamos de imediato com a história. Que menina versátil e especial essa Julie Delpy, não é verdade?

* Este texto foi escrito ao som de: Setting sons (The Jam – 1979)

The Jam

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