Do incômodo dos vencedores no festival dos amigos

Paula Gaitán, diretora de "Exilados do vulcão", o grande vencedor do FBCB

Paula Gaitán, diretora de “Exilados do vulcão”, o grande vencedor do FBCB

Um clima de desconforto pairou na festa de encerramento da 46ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Afinal, a premiação deste ano de um dos eventos cinematográficos mais importantes do país foi uma balela? Há quem diga que sim e tinha gente revoltada após o final da entrega dos prêmios.

Da experiência que tenho da cobertura do FBCB, digo, sem pestanejar, que esse incômodo reinante pós-festa é vigente há alguns anos. Por quê? Ora bolas, por conta dessa cultura viciada, engessada e burocrata que há tempos vem contaminando a mostra de cinema de Brasília.

A impressão que se tem é que o Festival de Brasília deixou de ser um espaço de ousadia e polêmica, eterna vitrine do que há de mais autêntico no cinema nacional para se tornar uma festa entre amigos regada a afetos múltiplos, nostalgia fora de época e celebração do fútil. E digo isso com pesar meu chapa, porque panelinha é o câncer da humanidade e no cinema, infelizmente, também é assim.

“Todos os cineastas me traíram!”, bradava em alto e bom som o inquieto Glauber Rocha, no fim da vida, inconformado com os rumos tortos que o cinema brasileiro estava tomando.

Bem, fazendo dele as minhas palavras em tom de paródia grito: “Todos vocês do Festival de Brasília me traíram!”, digo, meio que verbalizando as vozes das massas, do público do festival, daqueles inconformados e insatisfeitos com os caminhos que o Festival de Brasília e porque não o de outras cidades, como o de Gramado, vem seguindo nos últimos anos.

Sim, porque o que Glauber defendia era um cinema brasileiro cada vez mais independente e FBCBautoral, voltado para o Brasil em todas as suas confluências estéticas, políticas e sociais. Um cinema desprendido da influência hollywoodiana e do mercado estrangeiro, enfim, um cinema brasileiro. O que pedimos e queremos é que o Festival de Brasília volte às suas origens, resgate a identidade de palco de discussões de um Brasil plural e real e que aqueles que se propõe a mostrar esse país -, talvez desconhecidos de todos nós -, sejam prestigiados e premiados decentemente pelos seus próprios méritos. Enfim, que sejam reverenciados de maneira correta e justa.

Portanto, não transforme o mais importante e emblemático espaço do cinema nacional em conluio entre amigos e interesses diversos. Porque foi desagradabilíssimo, por exemplo, ficar ouvido discurso de representantes do banco x ou do patrocinador y, enfim, burocratas engravatados que não sabem direito qual a diferença entre televisão e cinema, falar sobre a importância do audiovisual no Brasil, o que já estamos carecas de saber. E por falar em careca, o deputado Wasny de Roure, representando a Câmara Legislativa, estava tão deslocado em cena, quanto gringo visitando ensaio de escola de samba.

Lá fora, após o final da mostra, tinha gente questionando a banalização da premiação, do festival em sim. Concordei em parte com o discurso e cabe aqui uma reflexão pertinente.

Afinal, os prêmios de melhor ator coadjuvante para o cineasta Carlos Reichenbach e o diretor de fotografia Aloysio Raulino (fotógrafo do longa, Riocorrente, de Paulo Sacramento), ambos recentemente falecidos, assim como o de Melhor Filme para Exilados do vulcão, de Paula Gaitán faziam referências a toda uma simbologia existente por traz dessas pessoas? Da história que essas pessoas têm com o cinema brasileiro? Da importância que algumas delas tem e tiveram com o Cine Brasília e o Festival de Brasília?

O público, consternado, sensibilizado teria dado o prêmio de júri popular ao longa, Os pobres diabos, por conta da série de problemas técnicos que o filme de Rosemberg Cariry teve durante sua exibição?

Bem, jogo a batata quente para vocês.

O que quero deixar frisado aqui é que, independente das insatisfações e polêmicas em questão é que gostei muito de Exilados do vulcão ter levado o maior prêmio da noite, porque é um projeto que comunga com muita coisa que aprecio e defendo com relação ao festival e a história do Cine Brasília. Ou seja, o de ser uma obra autoral e autêntica do cinema de invenção, do cinema de criação. Tudo a ver com o perfil do festival.

* Este texto foi escrito ao som de: Cosmo’s Factory (Creedence Clearwater Revival – 1970)

Cosmo factory

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