Paula Gaitán sob o signo de Glauber Rocha

Estreia da diretora no gênero ficção, o filme flerta com o cinema de poesia

Estreia da diretora no gênero ficção, o filme flerta com o cinema de poesia

As pessoas estão tão acostumadas a ver filmes mastigados, entregues assim de bandeja que, quando assistem a um projeto, digamos mais ousado, estranham. Por isso que a debandada ontem, durante a exibição na Mostra Competitiva Ficção do filme, Exilados do vulcão, de Paula Gaitán, foi grande. Quando olhei para trás, lá pela metade do filme, notei que a sessão estava pela metade. O que é uma pena porque algumas pessoas perderam a chance de se deleitarem com uma obra que é puro cinema, enfim, cinema de verdade.

Era de se esperar, já que Paula, ex-mulher do genial cineasta Glauber Rocha, e Eryk Rocha, filho do diretor aqui produtor do projeto da mãe, só fizeram manter a tradição de flertar com o experimentalismo nos trabalhos que realizam. “Tenho uma relação de amor com essa cidade desde A idade da Terra (último filme de Glauber rodado em Brasília), cidade onde o Eryk nasceu e que sempre acolheu nossos filmes de forma maravilhosa”, disse a diretora colombiana radicada no Brasil desde os anos 70.

Destaque do último dia do Festival de Cinema de Brasília, o filme é uma viagem sensorial na trajetória de um grupo de pessoas que gravitam em torno de um vulcão imaginário localizado no fim do mundo. O lugar, de tão inóspito, lembra outro planeta e esse sentimento de estranhamento proposital norteia o tempo todo a trama do longa que explora o tema da memória e dos sentimentos abstrato que o circundam de forma poética e alegórica.

Exilados do vulcão 2“Ela tem o rosto da cor do céu e a chama do desejo”, diz um dos personagens.

Sim, Exilados do vulcão não é um filme fácil. Cinema de detalhes no melhor estilo, a fita aposta numa narrativa cheia de elipses, mensagens subtendidas e fragmentos visuais para construir uma história de mistérios. E montar este quebra-cabeça cinematográfico é que entedia as pessoas que têm preguiça não de ver um filme, mas de compreendê-lo em sua natureza mais enigmática.

Assim, para quem não tem imaginação lírica ou algo que chegue perto disso, o apito do trem e trovões incessantes, cortinas fluorescentes que se transformam em larvas, luz intensa que explodem em labaredas de fogo passam tão despercebidos como uma folha que caí ao léu. E o mais interessante é que Exilados do vulcão é o tipo de filme que anda fazendo falta no Festival de Cinema de Brasília, evento que precisa cada vez mais voltar às suas origens, resgatar sua identidade política e experimental.

Bom, não vi todos os filmes do evento, mas do pouco que vi notei que a mostra ainda continua descaracterizada em sua essência e a desculpa não é a falta de filmes, já que a produção cinematográfica brasileira vai muito bem, obrigada. O problema, como já disse aqui e repito, está na comissão de seleção dos filmes que têm medo de ousar ou se deixam levar pela política do favorecimento deste e de outro, enfim, da viciada e engessada política cultural local.

Certa vez, tive oportunidade de participar da escolha dos filmes vencedores de uma edição e confidencio aqui que o pau come entre o júri porque os debates são acirrados, balizados por sentimentos bairristas e, em alguns casos, por falta de critérios. Em poucas palavras uma vergonha e não é disso que a maior e mais importante festa do cinema brasileiro, assim como do público que a prestigia, merecem.

* Este texto foi escrito ao som de: Through the devil softly (Hope Sandoval – 2009)

Hope Sandoval

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