Que? – Roman Polanski (1972)

Mastroianni soltando a fera que há dentro de si para Polanski

Marcello Mastroianni soltando a fera que há dentro de si para Polanski

Astro galã dos filmes de Fellini, Antonioni e tantos outros nomes do cinema italiano e europeu nos anos 50 e 60, o belo Marcello Mastroianni resolveu chutar o pau da barraca na década seguinte e mandar para os ares a imagem de latin lover que havia eternizado. Assim, contrariando seu público feminino e masculino, o ator mergulhou de cabeça em papeis grotescos e enredos rocambolescos no qual sobressaíssem, mesmo que de forma inconsciente, a desconstrução dessa persona incômoda.

A comilança, de Marco Ferreri, de 1973, foi um desses trabalhos. Registro obscuro na filmografia de Roman Polanski, seu Que?, de 1972, seria outro. No primeiro, Marcello encarna um devasso amoral que só quer saber de comer, comer e comer: comidas e meninas. No segundo, vive o misterioso Alex, dono de uma mansarda à beira do Mediterrâneo onde o sexo entre seus amigos e convidados inesperados não tem limites.

Contado assim, desse jeito, até parece que o filme do cineasta franco-polaco é pornográfico, o que não é, mas beira ao pornô soft, quase uma versão suave do clássico do gênero Emanuelle. Produzido por Carlo Ponti, a fita reverbera na mesma temática de Armadilhas do destino, filme de Polanski de 1966, onde personagens nebulosos, sem nenhum vínculo entre si, são obrigados a conviver numa situação absurda.

Que 3Após sofrer uma tentativa de estupro, a jovem ingênua Nancy (Sydne Rome) foge de seus agressores noite adentro e vai parar nessa casa cheia de pecado cujo anfitrião é Alex (Mastroianni). Ela tenta explicar o que lhe aconteceu a pouco, mas as pessoas ao seu redor estão interessadas em outra coisa que tem a ver com o motivo que a levou ali.

O roteiro de Polanski e seu parceiro de toda uma vida, Gérard Brach, tem esteio no absurdo para colocar em foco as imoralidades humana. A cena em que nossa heroína em apuros, é persuadida a ficar nua, diante de um velho moribundo interpretado pelo ótimo ator inglês Hugh Grifith (o árabe amigo de Ben-Hur), além de impagável, dá a medida certa das escatologias polanskianas que surgem na tela. O desfecho não poderia ser mais emblemático, com Nancy fugindo nua, entre porcos num caminho cheio de merda, numa metáfora de nossa condição.

Ao ver o filme me veio à cabeça, sim, A comilança, de Marco Ferreri, também trabalhos do espanhol Luis Buñuel como A bela da tarde (1967), O discreto charme da burguesia (1972) e Esse obscuro objeto do desejo (1977). Para se vê que o pequeno Roman, que no filme encarna o estranho Mosquito, com um bigode de barão, mais uma vez estava à frente de seus mestres.

Ah, sim, e recordam dos personagens grotescos de Mastroianni que falei no início do texto? Pois bem, aqui até posar com uma ridícula fantasia de tigre e sendo chicoteado numa cena de sadomasoquismo ele se submete. Nada mão para um ator que gostaria de ser lembrado como um Tarzan bem matusquela.

* Este texto foi escrito ao som de: Chelsea girl (Nico – 1967)

Nico

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