Jukebox Sentimental – Heartcore (Merthiolate Hamlet)

LucQ Albano (esq.), do Suíte Super Luxo, um  dos melhores letristas da nossa geração...

LucQ Albano (esq.), do Suíte Super Luxo, um dos melhores letristas da nossa geração…

Se Renato Russo foi o poeta da geração 80 e parte da dos anos 90, dentro da minha cosmologia músico afetiva, LucQ Albano, do Suíte Super Luxo, com seu semblante de Lou Reed, foi o arauto dos dias de angústia que vivi (e ainda vivo) na virada do século. E só porque, entre outras coisas, assim como o líder da Legião Urbana, ele é um letrista formidável, daqueles que expõe com autenticidade os problemas da nossa alma escancaradamente, de forma dolorosa e passional, embora ele esteja longe de ser uma máquina. Sim, porque não há como passar despercebidos ou ficar impune a versos como:

“Meu bem, pare de sofrer discutindo com a tevê/Ela é tão superficial, enquanto eu sou tão real”, reflete em Ad hoc, faixa de abertura do álbum de estreia do grupo, El Toro!

E o culpado por essa cumplicidade entre banda e fã foi o meu amigo Pedro Brandt, talvez um dos grandes especialistas sobre o rock de Brasília. Formada há exatos dez anos, a SSL, hoje com dois discos gravados (o segundo se chama Entre a piscina e o trampolim – 2012), só não explodiu nacionalmente porque os homens das gravadoras, os donos do mercado fonográfico são acéfalos, arrogantemente, acéfalos. Mas tudo bem, como diria o velho Quintana, eles passarão, enquanto a banda… Passarinho dentro do meu peito.

SSL 2Bem, confesso rubro que ainda não assimilei direito o som de Entre a piscina e o trampolim, mas El toro!, meu caro, El toro! está entre os melhores discos da minha vida! Um daqueles registros de estreias arrebatadoras que nos deixam de joelhos como, sei lá, Definitely maybe, do Oasis.

Guitarras raivosas suspensas, química fulminante entre baixo e bateria e letras confessionais, incômodas e universais. Adoravelmente incômodas e confessionais. “Ardem como merthiolate/As tuas lágrimas em minhas mãos/Nós já apertamos a mão do Mal/Mas já beijamos a mão de deus”, diz os versos viscerais de Heartcore (Merthiolate Hamlet), a minha preferida entre tantas outras do disco como A fantástica praia dos leões, Ad hoc, Máquinas passionais, Apetite e a adolescente, 2º Grau.

Outro dia, tempo cinza, sombrio, acionei a tecla repeat do som do carro e fiquei ouvindo a tarde inteira Merhiolate Hamlet e quase tive, digamos, assim, uma overdose do Id.  “Não me deixe meu amor/Me ajude saber quem eu sou”, ouvia introspectivamente, com lágrimas nos olhos, os falsetes deste verso, me vendo retorcido no retrovisor do carro.

E quem eu sou afinal? Que rei sou eu? Rei? Estamos falando de altezas e o mendigos e precisamos destronar, matar o príncipe e a bruxa macbethiana sádica, enfim, purificar nossas almas. E quer saber? LucQ Albano é que tem razão. Nossas almas shakespearianas precisam de band-aid e merthiolate. “Teu cartão de crédito não pode mais nos corromper” ele diz e eu complemento: “Nem seu cinismo pode me contaminar, baby”.

Bem, se você ainda não ouviu ou não conhece Suíte Super Luxo é porque não é deste planeta ou sofre de autismo auditivo. Corre o risco de ser as duas coisas.

* Este texto foi escrito ao som de: El toro! (Suíte Super Luxo – 2003)

El toro

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