De bom tamanho de Alex Vidigal

Uma dupla de matadores que não mete medo, mas faz bom cinema

Uma dupla de matadores de aluguel que não mete medo, mas faz bom cinema

Carlos Reichenbach e Alex Vidigal. Os dois nomes não poderiam ser mais emblemáticos juntos num mesmo dia do Festival de Brasília, porque, de uma maneira ou de outra, eles estão direta e indiretamente ligados seja no campo imagético, das sensações ou das referências. Enfim, guardada às devidas proporções e distanciamento, um é o mestre e o outro é o discípulo dedicado que fez as lições de casa certinha. Ou ainda está fazendo.

Sim, porque um dos jovens e promissores talentos do cinema da cidade, Vidigal é um cara que respira 24h cultura em todos os seus segmentos, mas o cinema está entre suas grandes paixões. E sei disso porque começamos juntos nesse apaixonante e prazeroso ofício de amar a sétima arte acima de todas as coisas, quando ainda éramos estudantes na faculdade e frequentadores assíduos da Academia de Tênis e o Cine Brasília, esse último templo da arte de Glauber Rocha, Luís Buñuel, Antonioni, Godard e tantos outros nomes do gênero.

Uma usina de referências culturais em jovem, Alex Vidigal, sem que ele tivesse conhecimento real disso, me alimentou e instigou muito com sua ampla e curiosa teia de referências musicais e cinematográficas e sorte de seus alunos de audiovisual que o tem como mestre. Por isso que ontem, durante a Mostra Brasília, senti muito orgulho de vê-lo subir ao palco do Cine Brasília para apresentar pela primeira vez naquele espaço sagrado seu filme De bom tamanho.

“Eu frequento o Cine Brasília desde os 10 anos de idade e é estranho ver esse lugar assim, deste De bom tamanhoângulo”, brincou, referindo-se ao fato de muitas vezes estar do outro lado da sala, na condição de espectador contemplativo. Com sua cabeleira de Valderrama, simpatia de Quentin Tarantino e figurino de camaleão mutante ele apresentou a equipe e agradeceu ao júri por ter escolhido um “filme não educado” para participar da mostra. “Acho que precisamos é disso no cinema de Brasília, uma veia de falta de educação”, ironizou.

E é verdade. De uns tempos para cá Brasília anda tendo muitos cineastas e muitas produções cinematográficas, mas poucos são os diretores de cinema de fato que, à revelia da vaidade, da necessidade gratuita de querer aparecer a todo custo, estão comprometidos com uma leitura mais ousada e autêntica no exercício de levar sonhos para as telonas como operários da sétima arte na cidade. Alex Vidigal, Iberê Carvalho, Santiago Dellape, Gustavo Serrat são alguns nomes dessa nova e jovem geração de cineasta que, com estilo peculiar de contar suas histórias, pouco a pouco vem fazendo diferença nesse mar do brasiliense.

Estrelado pelos atores André Deca e Edu Moraes, dois talentos da cidade, em pouco mais de 10 minutos De bom tamanho conta a história de uma dupla de matadores de aluguel preocupados com algo mais do que a profissão mal-encarada que eles têm. O texto de Vidigal é afiado, irônico, divertido e carregado de duplo sentidos maneiros, mas de nada isso seria importante se a direção de atores não estivesse à altura dos diálogos sacados. Daí vem a câmera firme, confiante e denunciante de quem está atrás dela sabe muito bem o que está fazendo. Ainda bem.

À noite, ao ver o drama Avanti popolo, de Michael Wahrmann, no qual o diretor Carlos Reichencbach, que nunca foi ator, encarna um pai amargurado que espera o filho desaparecido nos porões da ditadura por quase 40 anos, fiz o link natural entre os dois diretores de gerações diferentes que são figuras presentes no Cine Brasília.

Bom, infelizmente Carlão não está mais entre nós, mas cabe a Vidigal e sua geração manter a acesa a chama de um cinema audacioso, verdadeiro e autêntico do qual Reichenbach e sua geração defenderam. Um cinema que aprendemos admirar e amar.

* Este texto foi escrito ao som de: Curtis (Curtis Mayfield – 1970)

Curtis

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