Macbeth de Roman Polanski (1971)

Jon Finch encarna o personagem shakesperiano nas telonas

Jon Finch encarna o amaldiçoado personagem shakesperiano nas telonas

Shakespeare fica bem nas telonas e nas telinhas. Do contrário, não teriam tantas adaptações assim do bardo inglês no cinema ou na televisão. Roman Polanski sabia disso e, depois de se consagrar como diretor do terror psicológico, O bebê de Rosemary, então um sucesso mundial, resolveu encarar o desafio de ter uma versão shakespeariana sua e o texto escolhido não poderia ser mais emblemático, Macbeth.

Escrita entre os anos de 1603 e 1607, essa tragédia também adaptada para as telas por mestres como Orson Welles (1948) e Akira Kurosawa (1957), versa sobre o tema da ambição e traição em torno de um regicídio arquitetado pelo personagem título e sua esposa Lady Macbeth. O enredo violento, pontuado por tragédias e perdas pessoais irreparáveis dos personagens centrais, parecia um prato cheio para o cineasta franco-polonês exorcizar seus fantasmas recentes, após o brutal assassinato da mulher Sharon Tate, em agosto de 1969, pela gangue demoníaca do maníaco Charles Manson.

Assim, o Macbeth de Roman Polanski traz uma textura visual de Lawrence da Arábia – o charmoso épico de David Lean -, só que nada ensolarado, apresentando aqui uma fotografia puxada pela sombra, pelo ódio e o pelo signo do maligno. Explorando com propriedade o inconsciente, pesadelos e devaneios dos vilões e heróis da história, o diretor não excita em mostrar cenas de assassinatos e crueldades de toda a natureza como estupros, morte de crianças, um bebê arrancado do ventre da mãe, lutas sanguinárias entre animais selvagens e bruxas horrendas nuas Macbeth 4ao redor de um caldeirão efervescente de maldade e vilania.

“Ao redor do caldeirão dançamos. Entranhas envenenadas dele jogamos”, pragueja uma delas, banguela, tirando um sapo morto da sacola.

Imponente nos figurinos e locações deslumbrantes norteadas pela luz das auroras e crepúsculos, essa adaptação shakesperiana de Polanski faz o espectador entrar no clima não apenas pelo o que se vê e lê (o roteiro é do próprio diretor em parceria com o dramaturgo Kenneth Tynan), mas pelo o que se ouve na deliciosa e viajante trilha sonora do grupo experimental, The Third Ear Band.

Financiado em boa parte com dinheiro da Playboy, Macbeth de Roman Polanski – que na época estava cotado para dirigir o drama Papillon -, não foi um sucesso de bilheterias e dividiu a crítica. Contudo, colocou em evidência para os cinéfilos o trabalho de artesão da sétima arte do diretor iluminado em todos os detalhes. Desde a parte técnica, quanto humana, onde sobressai boas atuações, destaque para os atores Terence Bayler e Jon Finch, que no ano seguinte viveria um serial killer no suspense hitchcockiano, Frenesi.

Eu, depois de ver esse filme marcante, vou reler a tragédia desse personagem amaldiçoado de Shakespeare com outrao olhar. Mas isso, só depois de encontrá-lo na minha estante mágica.

* Este texto foi escrito ao som de: The Third Ear Band (1970)

The Third ear band

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