Jukebox Sentimental – It makes no difference

The Band: De coadjuvantes de Bob Dylan a estrela do country rock

The Band: De coadjuvante de Bob Dylan a estrela do country rock

Há quem acredite, sabe-se lá porque, que a música canadense se resume, pelo menos no inconsciente coletivo de muitos, a nomes como Bryan Adams e Justin Bieber. E pode até ser, se você estiver num faixa etária entre os 13 e os 50 e poucos anos, apresentar certa tendência autista e não teve nenhuma curiosidade para ir além de versos de bobagens como Baby, One time ou Heaven.

Inicialmente conhecido como o grupo musical de apoio de Bob Dylan, os meninos da The Band – quatro deles canadenses e um do Arkansas – já mostrariam que eram muito mais do que uma sombra coadjuvante do astro folk, ao gravarem, em 1968, o antológico álbum, Music from Big Pink. Aos primeiros acordes de faixas arrebatadoras como a atormentada Tears of rage, I shall be released e a bíblica, The weight, o ouvinte, muitos já àquela altura fãs apaixonados, puderam notar que o pretensioso nome da banda não era mera decoração de apresentação.

E, se os californianos dos The Byrds imortalizaram em esfera universal as canções e letras de Bob Dylan, no início de sua carreira, coube à The Band cimentar de vez as criações do bardo debaixo de uma camada grandiloquente e sofisticada de arranjos autênticos. O registro de 1975, The basement tapes, dá conta disso.

Multi-instrumentistas de talento, letristas concisos ancorados num visual sulista que lhe davam um aspecto de respeitáveis homens do início do século passado em plena década de 60 e início dos anos 70, o grupo está entre os mais importantes do country rock de todos os tempos e muitas de suas canções são responsáveis por minha memória auditiva afetiva.

Gozado que quando comecei a ler sobre eles achava que fosse ouvir algo como Bob Dylan picture-61multiplicado por cinco, alguma coisa do tipo, mas o barato foi que descobrir algo mais além, um mundo imenso de imagens musicais sintetizadas numa fusão root de instrumentos como baixo acústico, órgãos, rabecas, bandolins, acordeões e guitarras elétricas.

Quem escutar a circense When I paint my masterpiece – um dos vários cover de Bob Dylan que gravaram – ou a baladona arrastada, The night they drove old Dixie down, sabe do que estou falando. Contudo, são as letras tristes e diretas como um soco no estômago que me deixam pairando num pântano de lembranças amorosas amarguradas e arrebatadoras. E só porque elas, de maneira incômoda e confessional, dizem a verdade.

“Não faz diferença onde eu viro/Eu não posso superar você e a chama ainda queima/Não faz diferença, noite e dia/A sombra parece nunca desaparecer”, diz os arrepiantes versos iniciais de It makes no difference, uma das minhas faixas preferidas deles escrita pelo emotivo, Robbie Robertson. “E o sol não brilha mais/E as chuvas caem em minha porta”, arremata o refrão acachapante conduzido pelo baixista Rick Danko.

A história é parecida como tantas outras que narra a tragédia de um coração partido por alguém que se amou muito e não voltará mais. Alguém que foi embora e deixou uma dor imensa dentro do peito. Mas o tema dentro da cosmologia musical criada pelo grupo ganha uma grandeza pungente tal que quase temos vontade de nos enterramos vivo com o protagonista da trama.

“Não faz diferença quão longe eu vá/Como uma cicatriz a dor vai sempre aparecer/Não faz diferença quem eu encontro/Eles são apenas um rosto na multidão/(…) As nuvens nunca se penduraram tão baixas antes”, diz outro trecho, sublinhado pelo saxofone choroso de Garth Hudson.

Desculpa aí se alguém ficou sem fôlego…

* Este texto foi escrito ao som de: The Greatest Hits (The Band – 1991)

the band - greatest hits

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