A religiosa (2013)

E quando as Madres Superioras se apaixonam pelas pupilas?

E quando as Madres Superioras se apaixonam pelas pupilas?

Todo mundo que já passou por alguma experiência religiosa, seja ela radical ou não, sempre tem uma história de desagravo ou insatisfação com relação a sua fé e crenças, enfim, com alguma coisa do tipo. Eu, por exemplo, odeio padres e freiras. Mas as freiras, só as velhas. As novas me fazem lembrar a gracinha da Audrey Hepburn desfilando para cima e para baixo de hábito no drama, Uma cruz à beira do abismo (1959).

Nos meus tempos de coroinha (e quando eu conto que já fui coroinha as pessoas não acreditam) a minha cruz era a irmã Sofia que, com sua boca de jereba, me infernizando para cantar uma canção religiosa direito. “Hortência flor mimosa, queremos lhe ofertar…”, ainda tenho pesadelos com esse verso.

Mas meus sofrimentos sacros não foram nada perto dos flagelos da carne e da alma vividos pela jovem Marguerite Delamarre, cujos fatos reais de sua triste vida, inspiraram o escritor francês, Denis Diderot (1713 – 1784), escrever o livro A religiosa. Publicado em 1796, a obra, um libelo incômodo sobre as atrocidades e barbáries, sobretudo, morais que aconteciam nos coventos na Idade Média, se tornaria uma febre entre as pessoas durante a Revolução Francesa.

Para quem se interessa pelo assunto, a dica é uma adaptação clássica para os cinemas dirigida por Guillaume Nicloux, em cartaz bem ali no Libert Mall. Na trama, a jovem Suzanne (Pauline A religiosaEtienne), com seu ar de diva virginal, parece ter nascida para sofrer o inferno nas mãos de madres sádicas, tiranas e libidinosas que aproveitam do poder que tem para, paradoxalmente, cometer o mal. Inconformada com a ideia de ser freira, já que acredita não ter vocação para as vontades do senhor, o tempo todo ela questiona e bate de frente com suas superioras, sendo castigada impiedosamente pelas afrontas.

“Não são os sacramentos que vão salvá-las. Se comer ela sobrevive”, reprime um médico, ao vê-la sua paciente moída pelos castigos.

Um dia Suzanne resolve escrever sobre os seus martírios e esses escritos acabam parando nas mãos de um advogado que irá tirá-la daqui sob a intervenção de um marquês. O desfecho dessa história é redentor, mas até lá duvido que o público tenha fôlego para seguir a luz no fim do túnel junto com a jovem Suzanne.

Com seu clima de Joana D’Arc, A religiosa chega aos cinemas do mundo inteiro num momento delicado para a Igreja Católica, assim como na época dos escritos de Diderot, alvo de severas críticas da sociedade de seu tempo. Uma observação que se torna gritante quando vemos com certa repulsa e nojo, em contrapartida com as denúncias de pedofilia no Vaticano, as investidas lésbicas de uma madre superiora contra suas pupilas, vivida pela charmosa Isabelle Ruppert.

Reprimidas e sufocadas pelas opressões dos claustros, esses personagens malditos e vítimas em cena surgem como almas frágeis e atormentadas observadas, ironicamente, por adoráveis imagens de santos e anjos. E porque eles são bons de verdade, embora não sejam reais, mas meras decorações pictóricas em paredes de sombra e medo.

* Este texto foi escrito ao som de: Submarine (Alex Turner – 2011)

Alex Turner

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