O bebê de Rosemary (1968)

John Cassavetes e Mia Farrow engolfados por tramas satânicas

John Cassavetes e Mia Farrow engolfados por tramas satânicas

Sei lá, acho que já vi esse filme do Polanski umas dez vezes e em cada uma delas eu descobri uma coisa nova, dada a quantidade de mensagens subliminares escondidas aqui e acolá. E, confesso que dessa vez fiquei com um pouco de medo da trama. Mas um medo meio do inconsciente, se é que vocês me entendem. O problema de pessoas descrentes, céticas, que tira onda de ateu, tais como eu, é que, em momentos de apuro como esse, não temos a quem recorrer. Pegaria muito mal para um sujeito que já tem barba branca incomodar minha mãe no meio da noite…

De longe o trabalho mais importante de Roman Polanski, o que deu prestígio de vez ao cineasta franco-polonês em Hollywood e sua maior bilheteria em toda a carreira, O bebê de Rosemary é um marco do moderno cinema de horror. Ou seja, aquele em que elementos de uma psique perturbada e situações banais do cotidiano surgem como fonte para as mais aterrorizantes situações.

Baseado no best seller de Ira Levin, a fita é vista como o segundo título da “trilogia do apartamento” criada pelo diretor nos quais fazem parte Repulsa ao sexo (1965) e O inquilino (1976). De fato, o espaço nesses três trabalhos surge como uma espécie de personagem oculto, interferindo de forma direta ou não, no roteiro.  O edifício Dakota aqui, prédio onde moram os Woodhouse (John Cassavetes e Mia Farrow), se confunde com as almas atormentadas em cena.

Um ator em início de carreira que luta por um lugar ao sol, o ambicioso Guy (Cassavetes) faz um O bebê de Rosemary 4pacto com o diabo prometendo o filho que está por vir “coisa ruim”, o afamado bebê de Rosemary. A magia funciona porque logo ele ganha o papel numa peça de teatro quando seu concorrente fica cego e começa a ser sondado pelos grandes estúdios de Los Angeles.

“A Paramount e a Universal já mostraram interesse em meu trabalho. Logo vamos poder ter o que quisermos”, diz eufórico, num sutil exercício de metalinguagem da parte do sofisticado diretor.

Assim, sem que a ingênua Rosemary dê conta dos acontecimentos satânicos que rondam sua rotina, nas entrelinhas, ele, mancomunado com os vizinhos Castevet (Ruth Gordon e Sidney Blackmer em atuações implacáveis) – na verdade bruxos disfarçados de simpáticos velhinhos -, vai garantindo seu futuro, mesmo que à sombra do mal.

Interessante a forma como Polanski vai introduzindo o terror no estilo de camadas de suspense em seu roteiro crivado de signos que vão desde o alusivo clichê número da besta, passando pelas críticas à Igreja católica e a ostentação do Papa, até chegar à capa tendenciosa da Time que pergunta, de forma irônica, se deus não estaria morto.

Nada mais provocante numa época em que os Stones pediam simpatia pelo demônio, figuras como o satanista Aleister Crowley era tido como celebridade e o mundo parecia de cabeça para baixo com atrocidades como guerras do Vietnã e assassinatos de líderes com ideias humanistas nos quatro cantos do planeta.

“Tudo é showbiz, roupas e rituais! Todas as religiões são iguais”, critica o personagem de Sidney Blackmer, a própria reencarnação do filho do diabo.

As melhores partes para mim de O bebê de Rosemary são as cenas dos pesadelos da personagem título, carregadas de simbologias satânicas, mas, sobretudo, de contundentes críticas políticas e antirreligiosas.

O todo poderoso chefão da Paramount Bob Evans é que tinha toda razão quando o produtor de filmes de terror B, Bill Castle, lhe ofereceu os direitos cinematográficos do livro de Ira Levin. “Só conheço um nome para esse projeto: o do ‘polonês baixinho’”, teria dito ele, que adorava os primeiros filmes de Polanski ainda na distante Polônia.

Nunca uma ofensa foi tão elogiosa.

* Este texto foi escrito ao som de: 13 (Black Sabbath – 2013)

13

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