Contos eróticos (7) – Pintas…

"Ela sempre ficava nua, na cama, de bruços, depois de uma noite quente daquelas...".

“Ela sempre ficava nua, na cama, de bruços, depois de uma noite quente daquelas…”.

Gostava de admirar a pinta que ela tinha no lado direito da bunda, quando ficava em pé, junto à janela, sentido o cheiro e a agitação da cidade lá fora, com o vento frio soprando em seu rosto. Ela sempre ficava nua, na cama, de bruços, depois de uma noite quente daquelas e o perfume doce do corpo branco dela o deixava quase que em transe. Por isso que gostava de surpreendê-la por trás, roçando sua barba hirsuta na nunca delicada com gosto de sonho que ela tinha, cobertos por intensos cabelos negros. Era delicioso ver seu corpo se arrepiar após esse gesto íntimo de ternura e daí começava tudo de novo… E de novo… E… De novo…

– Você hein… Brincava ela, com olhos entreabertos, sonolentos, sorriso maroto no rosto, ladeado por duas pintas estelares em cada canto da boca, numa imagem quase angelical na terra. Sim, porque anjos angelicais não existem, sorry…

E na manhã seguinte, a rotina metálica e sem graça do dia a dia quebrava a magia daquele momento que acontecia, assim, vez ou outra, quando desse, quando ambos pudessem, e por isso mesmo era mais marcante porque nada é mais excitante do que a fuga dos amantes.

Nem eles entendiam direito como foram se tornar amantes, mas o fato é que Pedro e Amanda só encontravam paz de espírito, a tal felicidade plena – se essa bobagem existia -, quando estavam juntos. Um completava o outro em suas fragilidades, frustrações e anseios. E, ali, naquele aconchegante ninho de amor, era como se os dois fossem um só corpo, uma só alma perdidas nos devaneios do paraíso do amor.

– Gosto muito de você! Simplificava, ele, de maneira quase infantil.Monroe

-Eu também, conseguia ser mais simples ainda ela.

Eram momentos raros, esparsos, distantes até, mas quando aconteciam, valiam pela “eterna espera”, por toda uma vida. O que ele mais gostava nela era o jeito delicado de ser, a meiguice ingênua de Lolita que ela esbanjava, naturalmente, mesmo já sendo uma balzaquiana. E que delícia de balzaquiana.

E, claro, tinha aquelas pintas hipnotizadoras espalhadas por todo o corpo. As preferidas de Pedro eram as duas ensanduichadas em cada canto da boca e aquela atrevida no lado direito da bunda. Amanda era sua pintura renascentista preferida cravada de pintas por todo o corpo.

Um dia ele tomou coragem e a convidou para almoçar. E o susto foi tão grande quando ela aceitou que ele fez a pergunta cretina se o Pedro em questão era ele. Era. Às vezes os deuses do amor bandido se rebelam e casa de tramar traquinices malandras em que só o acaso sentimental pode explicar. E o mais gostoso é quando não há explicação nenhuma. Quando ele viu, estava com as mãos trêmulas e quentes na mão esquerda de Amanda, a mesma que carregava uma fria e incômoda aliança.

Eram desses detalhes que ele lembrava agora quando mirava o horizonte noturno da urbe da janela de seu quarto, ao mesmo tempo em que não tirava os olhos da pinta do lado direto daquela bunda alva e curvilínea dela ali, adormecida como um anjo terrestre em sua cama..

* Este texto foi escrito ao som de: Stage fright (The Band – 1970)

Stage Fright

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