A sorte em suas mãos (2012)

Drexler, esbanjando simpatia e talento em sua caricatura portenha de Woody Allen

Drexler, esbanjando simpatia e talento em sua caricatura portenha de Woody Allen

A primeira vez que vi e ouvi o músico uruguaio Jorge Drexler, foi num evento no CCBB de Brasília, mas eu estava tão vidrado na calcinha da Paula Toller, que nem prestei muita atenção no cara. E olha que ele estava na crista da onda com a canção Al outro lado del rio, do filme “Che”, de Steven Soderbergh, que acabou se tornando na primeira música em espanhol a vencer o Oscar na categoria.

De qualquer forma, mesmo assim, comprei o disco dele 12 segundos de oscuridad, lançado na época, e saí ganhando pelo menos com uma versão bem intimista da faixa High and dry, do Radiohead, uma de minhas bandas preferidas.

Agora o artista uruguaio volta à baila na mídia como protagonista da comédia argentina A sorte em suas mãos, em cartaz na cidade. Uma grata surpresa porque o músico, além de compositor e cantor refinado e competente, se mostrou ser também um ator convincente na pele do falastrão e angustiado Uriel, um financista discreto, divorciado, viciado em pôquer que toma conta de um casal de filhos enquanto tenta encontrar um novo amor na vida.

“A gente trabalha com dinheiro, pega mal, mas pelo menos não roubamos ninguém”, diz seu sócio, quando ele finge, por vergonha, em ter outra profissão.

Drexler 3Movido por uma insegurança crônica que lembra um daqueles personagens de Woody Allen, ele resolve, sabe-se lá porque, fazer uma vasectomia – operação que discute a trama toda com seu médico –, enquanto divide o tempo com o que chama de “hobby social” nos cassinos argentinos, além, claro, do que sobrou de sua família, ou seja, os filhos.

Um dia, reencontra uma amiga de infância (Valeria Bertuccelli) em crise com o namorado e um novo sol parece brilhar tanto em seu horizonte, quanto o dela, mas não antes sem muita confusão sentimental e situações cômicas inteligentes que só o cinema de autor do consagrado cineasta Daniel Burman – um descendente de poloneses judeus – tem.

Diretor de sucessos como Esperando o Messias (1999) e O abraço partido (2004), Burman burila bem suas obsessões temáticas e narrativas como as caricaturas que faz dos personagens judeus – desta vez um rabino descolado que joga pôquer e toca numa banda de heavy metal – das conturbadas questões familiares e do humor irônico que parece não levar muito a sério não só o ser humano, como o mundo em que ele vive. Um exemplo divertido é do diálogo de Uriel com seu filho sobre dinheiro:

– Papai, aquele monte de dinheiro é de quem?

– De ninguém…

– Então eu posso ficar com ele?

– Não porque esse ‘ninguém’ pode não gostar!

Não bastasse o ótimo roteiro, A sorte em suas mãos tem momentos líricos mágicos como o balé das cartas e o drapejar das fichas nas mesas, a tensão de cada lance entre um jogo e outro, ou ainda a divertida dança das crianças e adultos dentro de uma transparente bola gigante flutuando na água. Enfim, esse delicado filme sobre relacionamentos fez restaurar minha fé no cinema argentino, que pensei que tivesse perdido.

* Este texto foi escrito ao som de: 12 segundos de oscuridad (Jorge Drexler – 2006)

Drexler

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2 comentários sobre “A sorte em suas mãos (2012)

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