Mad Men – Entre o sexo e o poder

Série norte-americana exibida na HBO monstra como as aparências enganam

Série norte-americana exibida na HBO mostra como as aparências enganam

Quem diria que um dia eu fosse me viciar em alguma série norte-americana, algo que sempre abominei. Mas não é que a turma do Mad Men me conquistou! Sei lá, acho que foi por conta da época em que a história se passa, ou seja, bem no início dos anos 60. Daí tem uma quantidade enorme de referências musicais e cinematográficas que me amarro, enfim, não resisti. Outro dia, por exemplo, os personagens estavam discutindo se iam assistir a Psicose, de Hitchcock, ou Se meu apartamento falasse, de Billy Wilder. Bem, a parada é dura, eu sei, mas ficaria com o último, até por uma questão sentimental, identificação sensorial.

A dica quem me deu para esse programa que é exibido no HBO, na tevê paga, foi um amigo do trabalho e agora Mad Men virou mania na minha programação televisiva. A trama gira em torno de uma agência de publicidade com sede no coração de Nova York, na Madison Avenue. O centro das atenções é o diretor de criação da empresa Don Draper (Jon Hamm) e todos aqueles que orbitam ao seu redor. Ele é um bem sucedido funcionário da casa que tenta administrar os problemas de trabalho, em paralelo com os atritos conjugais.

Na agência ele é implacável, eficiente e respeitado pelos empregados e clientes. Em casa, age com a mulher carente e fogosa, assim como os filhos, de forma fria, displicente e negligente. A dicotomia casa/trabalho reverbera numa atitude reservada no lar e cheia de surpresas no ofício, onde, levado pelo meio em que vive, passa a agir como seus pares, ou seja, devasso, imoral e imprevisível.

Entre a linha tênue do sexo e do poder, os personagens de Mad Men meio que são a essência Mad Menreal da humanidade daquela época e porque não a de hoje. Sim, porque pouca coisa mudou, ou seja, tudo gira em torno do jogo de interesses, da reverência messiânica ao deus dinheiro e ao cheiro de sexo no ar. Daí as eleições entre o conservador e carrancudo Nixon, versos o carismático e bonitão John Kennedy vir a calhar no enredo. “Se o público feminino souber que ele é mulherengo o cara ganha as eleições” ironiza com ar de profecia um dos jovens publicitários da agência.

E dentro deste contexto, preste atenção em como as mulheres de Mad Men são meramente objetos de desejos, dentro dessa áurea sombria onde impera hectolitros de uísques, densa fumaças de cigarros e dose excessiva de canastrice. E, por esses e outras que não há como não se lembrar do universo de Nelson Rodrigues aqui, sobretudo quando vemos que por baixo do fino e lustroso esmalte da aparência, esconde um oceano de sujeira e indecência, seja ela do ponto de vista social, comercial ou moral.

Por isso mesmo, essa criação de Mathew Weiner – um dos queridinhos poderosos da televisão norte-americana do momento -, carrega na ironia elegante dos contrastes, no qual figurinos de época corretos e impecável direção de arte clean choca, o tempo todo, com o caráter dos personagens em cena. Acredite, meu caro, em Mad Men, todos têm seu preço, para mais ou para menos.

No mais, eu só quero saber por que escolhi uma trilha sonora dos anos 70 para falar de algo dos anos 60?

* Este texto foi escrito ao som de: Cahoots (The Band – 1971)

Cahoots

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