O beijo da mulher-aranha: livro/filme

O militante Valentín e o sensível Molina, unidos pela perda da liberdade

O militante Valentín e o sensível Molina, unidos pela perda da liberdade

O que me levou tirar da minha estante mágica a edição de O beijo da mulher-aranha que tenho em casa para ler, foi o fato de eu me dar conta, outro dia, de que não tinha visto ainda a adaptação de Hector Babenco do livro escrito, em 1976, pelo argentino Manuel Puig. A ficha só caiu depois de eu assistir no Canal TCM, também do cineasta argentino radicado no Brasil, o drama de época Ironweed (1987), protagonizado por Jack Nicholson e Meryl Streep.

O que não deixa de ser curioso já que o filme, baseado no romance homônimo talvez seja um dos trabalhos mais significativos da carreira de Babenco e um dos filmes mais importantes do cinema nacional da década de 80. E não só porque foi indicado ao Oscar e rendeu ao bonitão William Hurt a estatueta de Melhor Ator, mas pela força da trama que mistura temas pertinentes à condição humana como política, repreensão social, reclusão moral e solidão.

Na trama, dois detentos, um homossexual e outro um militante de esquerda, dividem não só a cela de um presídio de segurança máxima, mas suas angústias, desesperos, vontades tolhidas e sofrimentos da alma e da carne. Molina, a biba bem resolvida, interpretado com convicção no cinema por Hurt, ameniza o sofrimento da falta de liberdade romanceando com teatralidade e certo lirismo narrativo, os filmes clássicos que fizeram sua cabeça, no qual se sobressai, por motivos óbvios, a heroína. Espanta a descrição das cenas de Puig que não economiza nos detalhes.

Já Valentín, o jornalista marxista torturado vivido nas telonas pelo porto-riquenho, Raul Júlia, O beijo da mulher-aranha 3aceita seu mundo de militante radical ser vilipendiado todos às noites pelas fantasias burguesas da “colega”, por ser este momento a única válvula de escape dessa situação limite. Mas o atrito às vezes é inevitável. “Não tem um foco político, mas tudo bem”, reclama ele, do enredo açucarado de uma das histórias. “Eu não explico meus filmes. Destrói as emoções”, defende-se Molina, ofendida.

Cru, em sua natureza de ser, tanto o romance, quanto o filme é implacável na forma como apresenta e desnuda esses dois personagens de mundos e realidades distantes, ambos unidos e esmagados pela cinza realidade da falta de espaço e horizonte. Daí o fato da imaginação ser uma viagem necessária e até redentora para esses dois seres malditos. A vida exterior, em sua grande parte, só surge em cena por meio das memórias dos dois detentos.

O mérito de Babenco, um cineasta que viria a fazer do universo carcerário uma temática obsessiva no cinema que criou (Lúcio Flávio – O passageiro da agonia, Pixote e Carandiru), está em captar a essência da obra literária no cinema sem parecer fake ou dramaticamente piegas.

Contudo, é nas páginas de Manuel Puig que as contradições humanas em sua faceta mais mórbida ganham matizes mais coloridas, como por exemplo, na passagem emocionante e idealizada de Molina pelo seu amor por um garçom que não o corresponde, mas entende seu desejo por ele.

– O que significa, para você, ser homem? Provoca o amigo de cárcere com leve dose de sadismo.

– (…) Bem, o mais bonito do homem é isso, ser bonito, forte, mas sem fazer alarde da força…

E pensar que nas telonas a mulher do título era vivida pelo mulherão Sônia Braga, no auge da fama e da beleza…

* Este texto foi escrito ao som de: Ege bamyasi (Can – 1972)

Can

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