1001 músicas para ouvir antes de morrer

Keith Richards compõs o riff do maior hit dos Stones roncando

Não sei por que, mas sempre acho que vou morrer no dia seguinte. Na verdade, sempre achei que iria morrer cedo. Ainda acho que vou morrer cedo. Não espalhe por aí não, mas sou um suicida em potencial. Por isso que leio desenfreada e loucamente. Tudo bem, eu sei e já pedi, quando isso acontecer quero ir para um sebo, passar minha eternidade lendo, mas por via das dúvidas, sigo meu caminho em frente com um amor platônico no peito e um livro na mão. 1001 músicas para ouvir antes de morrer é um deles, é o livro do momento.

“Você realmente deve comprar, roubar, baixar ou pedir emprestadas as 1001 músicas recomendadas neste livro”, provoca o autor do prefácio Tony Visconti, um dos músicos e produtores mais importantes e influentes de seu tempo, em texto saboroso. “Não sei se conseguirei fazer isso um dia, mas, como o título sugere, morrerei tentando”, arremata.

Comecei folheando esse catatau, ontem, na Livraria Cultura e, quando vi, lá estava eu na página cento alguma coisa e com várias long necks de Heineken em cima da mesa. Sim, a obra é envolvente desse jeito, mas não só isso, também um verdadeiro banco de dados para quem ama música, independente de gosto musical, estilo ou artista predileto.

Além de detalhes deliciosos sobre grandes hits de todos os tempos, sucessos nas vozes de Frank Sinatra e Elvis Presley, Beatles e Stones, passando por ícones do psicodelismo ao glam rock, até chegar aos dias de hoje com os já finados Oasis e Lady Gaga, essa enciclopédia de luxo nos surpreende com fotografias e capas de discos raríssimos, além de frase antológicas de artistas e admiradores de algumas das canções. Também indica quais músicas foram inspirações para as 1001 eleitas aqui e quais elas influenciaram.

“Era a angústia pós-adolescente… ressoando em milhões de pessoas”, tenta explicar Paul Simon, sobre o hino de toda uma geração, The Sounds of silence. “A fita tinha dois minutos de Satisfaction e quarenta minutos do meu ronco”, debocha Keith Richards, bem ao seu estilo, sobre como surgiu o riff da canção mais famosa dos Stones.

Claro, nem toda música que está ali você conhece, assim como nem toda faixa que você vai saber a história é a sua predileta já que cada canção é um pedaço de nós, com todos os ingredientes intimistas, sensoriais e afetivos que ela carrega. Assim, Hey Jude, o sucesso do fab four que mudou a minha vida para sempre pode não ser unanimidade para muita gente – o que eu acho um escândalo ululante – como Yellow, o single do Coldplay que é o símbolo de minha paixão pela esnobe Ana não seja importante ou signifique algo para alguém. Tanto é que ela nem entrou nessa coletânea.

“As músicas do meu pai eram minhas músicas, mas é claro que as minhas músicas não eram as músicas do meu pai”, brinca Visconti.

Mas se sua música não estiver ali não se desespere porque os editores de 1001 músicas para ouvir antes de morrer apresentam uma lista com mais 10.001 que não podem deixar de ser ouvidas. O lance é saber se você terá fôlego para tanto, ou melhor, resta saber se estaremos todos aqui ainda quando isso acontecer.

A seguir, drops sonoros informativos extraídos do livro com breves comentários meus.

Over the rainbow (1939) – Difícil de acreditar, mas a canção quase ficou de fora do filme, uma dessas cretinices que volta e meia ronda o mundo cultural. A melodia foi composta por Harold Arlen enquanto o compositor dirigia pela Sunset Boulevard, mas a canção símbolo do clássico O mágico de Oz pertencerá para sempre a agridoce, Judy Garland. Toda vez que eu ouço essa balada tristonha me lembro da minha sobrinha menor, que ama a Dorothy e o filme.

Sapore di sale (1963) – Cafoninha até a medula, essa canção italiana de Gino Paoli fazia parte da trilha sonora da minissérie, Anos rebeldes, atração que marcou minha adolescência. O arranjo é do mestre Ennio Morricone, músico que imortalizaria o universo musical dos filmes de Fellini. Apesar da letra solar que faz alusão ao verão italiano, a faixa foi composta pelo autor num momento difícil de seu relacionamento. Na época o cara até pensou em suicídio.

Like a rolling Stone (1965) – A canção pode não ser a mais famosa ou querida de Bob Dylan, mas com certeza é uma das mais importantes e emblemáticas de sua carreira, assim como do pop rock. Hipnótica, poética, ácida e com um ritmo envolvente, a canção e sua letra figurativa, cheia de imagens surrealista mira uma mulher esnobe, mas muitos dizem ser o próprio bardo. “Rolling Stone é a melhor música que escrevi”, resume o pai da criança.

Waterloo sunset (1967) – De longe minha canção preferida dos Kinks, a faixa segue o mesmo raciocínio proustiano de sucessos da dupla Lennon e McCartney como Strawberry Fields forever e Penny Lane. É uma homenagem nostálgica e melancólica ao pôr-do-sol londrino e todas as implicações sentimentais e pessoais que essa paisagem carrega. “Nunca trabalhei com uma música que tenha sido um prazer do início ao fim”, revelou Ray Davies, em 1984.

Suite: Judy blues eyes (1969) – Só fui entender o que realmente era o folk rock quando ouvi pela primeira vez Crosby, Stills & Nash e essa canção, que adorava tentar tocar com o meu amigo Solemar. Um arremedo de quatro outras composições do versátil e polivalente Stephen Stills, a música se tornaria um dos hinos do movimento hippie, assim como uma das trilhas sonoras de Woodstock.

One (1991) – Todo mundo sabe que o ídolo maior de Chris Martin (Coldplay) é Bono Vox e que sua banda é uma variação do grupo irlandês. De modo que essa canção é uma influencia vertical do sucesso Yellow dos meninos londrinos. Escrita em Berlim, num momento de crise entre os integrantes, a faixa tem referências ao mestre budista, Dalai Lama. “Nunca entendi porque as pessoas querem esta música em seu casamento”, lamenta Bono.

Champagne Supernova (1995) – Diga o que quiserem, mas os irmãos Gallagher e o Oasis são o símbolo maior do movimento britpop. Última faixa do monumental álbum (What’s the story) Morning glory?, esse híbrido de psicodelia pop e guitarras distorcidas traz a essência musical dos anos 90 na Inglaterra. Noel Gallagher revela que o título surgiu de uma confusão que ele fez com uma canção do Pixies. “Ela significa uma coisa diferente para cada um de nós”.

* Este texto foi escrito ao som de: Todas as faixas acima e outras tiradas do livro resenhado. (1939 – 1995)

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