Na estrada com o Carga Pesada

Pedro e Bino, os heróis das estradas da minha infância…

Acho que foi o Mário Lago quem disse que ser saudosista é cuspir quadrado. Não sei se a teoria do grande cantor, compositor e ator carioca é verdade. Só sei que gosto, sim, de volta e meia dar um mergulho no passado, revisitar minhas gavetas afetivas e contar boas histórias sobre o que vi e vivenciei e olha que nem é tanta coisa assim. E o curioso não é nem isso, mas o fato de, às vezes, eu ser saudosista de momentos e situações que nem eram do meu tempo, que não presenciei. Vai entender…

Outro dia mesmo passei por experiência similar ao rever no Canal Viva, da Rede Globo, reprise do mítico programa Carga pesada. Mas não o antigo, que marcou minha infância, e sim o remake sem graça, feito no photoshop, da nova temporada. De qualquer forma pegar carona nas novas aventuras de Bino e Pedro me fez viajar no tempo.

Criado no final dos anos 70, a série de televisão fez história ao contar as peripécias da dupla de amigos Pedro (Antônio Fagundes) e Bino (Stênio Garcia) pelas estradas do país. A ideia para o programa surgiu depois do sucesso do Caso especial – Jorge, um brasileiro, que mais tarde viraria um filme maneiro com Carlos Alberto Riccelli. E tanto a série quanto o filme fizeram sucesso estrondoso por conta da novidade, da ousadia de colocar no horário nobre da emissora (às 22h) um universo pouco conhecido, mas de forte apelo popular. “Eu conheço cada palmo desse chão/É só me mostrar a direção”, cantava o root Renato Teixeira no inesquecível tema de abertura.

E no meu tempo de menino, quando assistia aos primeiros episódios do Carga pesada, o caminhão usado pelos meus dois heróis da estrada era, acho, que um Dodge D950 possante trucado amarelo manga e olha que o Cláudio Assis nem tinha pensado ainda em fazer o filme mítico filme com título de fruta madura. Depois eles passaram para uma Scania vermelha cabine quadrada e como era gostoso de vê-los cortando estradas de lama naquela carretona enorme toda estilosa. Sem falar da caracterização formidável de Antônio Fagundes com enormes óculos escuros na cara, barba de profeta e camisa aberta no peito.

Eu e meu irmão ficamos, assim, tão fissurados na série Carga pesada que logo eu e meu irmão iniciamos uma coleção de carretinhas. Era só a indústria de brinquedo lançar novos modelos de carreta e lá estava eu e meu irmão juntando dinheiro para comprar um caminhão para nossa coleção. Só teve uma coleção da Scania que trazia três modelos de carretas – uma carga seca, outro tanque e um terceiro baú – que não conseguimos comprar por era muito caro e a gente não tinha dinheiro, enfim.

Mas a nossa paixão por caminhões não era gratuita não já que a gente tinha dois tios que fizeram a vida cruzando “esse mundão de meu deus”. Eles sofreram muito, passaram muita fome na estrada e correram perigos mil, mas conseguiram tudo o que tempo vivendo dentro da boleia de um caminhão.

Qualquer dia desses, eu conto aqui o dia em que eu e meu irmão viajamos com tio Sinval no caminhão gaiola dele pelo interior de Goiás, uma aventura e tanto. Tirando onda de Proust, é só eu sentir cheiro de merda de gado que me lembro dessa viagem que fizemos com o nosso tio de caminhão. Acredite ou não, mas um dia eu já quis ser caminhoneiro e quem sabe se tudo não seria bem melhor seu eu pudesse riscar meu destino num road movie bem pessoal?

* Este texto foi escrito ao som de: Romaria (Renato Teixeira – 1978)

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