Crônica de um suicídio anunciado

...Ele tem uma alma doente de Rimbaud...

Perdeu a fé no ser humano. Há cinco anos que, definitivamente, perdeu a fé no ser humano e desde sempre carrega um peso, uma agonia, uma dor dilacerante no peito. E tudo por causa de um coração partido, mas, mais do que um coração partido dói o desprezo gratuito, talvez por isso mesmo não acredite mais no amor e nas coisas belas da vida. “Porcaria, quem afinal inventou esse diabo do amor?!”, resmunga. Os efeitos colaterais dessa paixão não correspondida machucam sua alma doente de Rimbaud…

O que mais o entristece é a falta de respeito com o sentimento alheio, as troças entre amigos, as grosserias gratuitas com dedos em riste na cara ou o telefone batendo novamente na cara, mentiras infantis e descasos velados, o desprezo típico de quem veio de cima e se acha melhor do que o próximo, de quem se acha acima do bem e do mal. “Há aqueles que chegam às maiores alturas para cometerem as piores baixezas”.

Um dia a perguntaram quem era o sujeito em questão. Com ar de desdém, meio que dando de ombro ela respondeu: “Ah, esse cara cismou comigo é só um subalterno”. O príncipe encantado dos canalhas insiste com a soberba dos nobres: “Tem cara de doido”. Ao que ela devolve, sem pesar as palavras, já que o conhecia tão bem: “Tem mesmo!”.

O absurdo de tudo e o que não entra na sua cabeça é que ele nunca entendeu porque tamanho desprezo de alguém que ele quer tão bem e torce tanto. Sim, porque quanto mais ele demonstra o seu amor, quanto mais se importa com ela, maior é o desprezo, as grosserias, as chacotas e a indiferença. Todos os anos ele se lembra do aniversário dela e da filha, mas ela age como se ele fosse invisível, como se não estivesse lá, como se não fosse ninguém ou pior, como se fosse um nobody. “Você força amizade”, a frase dita por ela até hoje chicoteia seu orgulho. “Você força a amizade, a amizade, a amizade, força… Amizade”, ouve em seus pesadelos.

Então, pediram sua cabeça numa bandeja de prata como se ele fosse um João Batista e nem lhe deram o direito de defesa só porque era um empregadinho de nada. O acusaram de um crime que não cometeu e nem lhe deram o direito de defesa só porque ele não é do tipo que anda de braços dado com o poder. “Cortem-lhe a cabeça, cortem-lhe a cabeça”, lembrou-se da rainha de Alice no país das maravilhas.

O trataram como se ele fosse um naco de carne e o jogaram aos lobos e não tem um dia, não tem uma noite que ele não se lembre disso porque o rancor é o alimento de cada dia, por isso o estômago dói e a febre não cessa e esse céu cinza sobre a cabeça que não vai embora…

… Ela é sádica, esnobe e injusta, mas, linda como uma manhã renascentista, uma tarde em Paris e mesmo assim ele gosta dela o que fez seu analista desistir dele.

De modo que resolveu se afastar, desenvolvendo um estilo de vida que não precise, necessariamente, de sua existência. Qualquer dia desses, ele se mata e deixa para ela o sofrimento das sobrinhas e da mãe. Será que um dia suas sobrinhas irão perdoá-la por isso?

Talvez não, mas e daí porque egoísta e esnobe que ela é com certeza vai dar de ombros, lançando uma última troça sobre o plebeuzinho inconveniente:

– Ufa, Lili, desse a gente se livrou, né?

* Este texto foi escrito ao som de: Ágaetis Byrjun (Sigur Rós – 1999)

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2 comentários sobre “Crônica de um suicídio anunciado

  1. Oi Lucinho, querido! Não desista do amor e sim desta que você escolheu amar. Lute por sua felicidade! Pense no amor que suas sobrinhas lhe dedicam. Torço por vc, que é uma pessoa especial, com um coração imenso! =)

  2. Oi querido Lucinho! Não desista do amor e da vida. Você merece ser feliz e será! Lembre-se das suas sobrinhas que te amam tanto. Você é uma pessoa maravilhosa e especial. Um dia essa dor vai passar… Tudo passa… Acredite! 😉

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