Sherlock Holmes na visão de Billy Wilder

Billy Wilder levou para as telas um Sherlock Holmes mais melancólico e blasé

Numa das duas vezes em que subiu ao palco da grande festa do Oscar deste ano, o cineasta francês Michel Hazanavicius, vencedor dos prêmios de melhor diretor e melhor filme por, O artista, fez questão de agradecer o seu sucesso e reconhecimento ao talento de Billy Wilder. Não foi o primeiro a fazer isso. Em 1994, quando pegou sua estatueta de melhor filme estrangeiro pela comédia, Sedução, o espanhol Fernando Trueba fez o mesmo. Só que de maneira mais passional:

– Se acreditasse em Deus, agradeceria a Deus. Mas, como não acredito, agradeço a Billy Wilder.

Demonstrações mais do que justas a um dos grandes nomes do cinema do século 20. E se você ainda não viu nenhum filme desse grande mestre da sétima arte, o que acho impossível, com certeza não saberá e nem entenderá o tamanho da admiração dos dois artistas. Bem, eu vi todos os filmes de Billy Wilder que saíram em DVD no Brasil e, alguns daqueles que não saíram, como é o caso de, Amor da tarde (1957) tive o prazer de assistir no Cine Cult.

Rodado em 1970, A vida íntima de Sherlock Holmes, era outro trabalho de Wilder que eu não conhecia e tive a sorte de ver outro dia na SKY. Um tanto quanto desprezado pela crítica e por seus seguidores, essa comédia de época surpreende, claro, por aquilo que o diretor tinha de melhor, ou seja, o humor cínico.

Imagina a clássica história do detetive mais famoso do mundo e seu fiel assistente, Dr. Watson, criada por Arthur Conan Doyle, na visão de Billy Wilder… No mínimo um sundae. No filme, o enrendo escrito a quatro mãos com, I.A.L. Diamond, co-roteirista de sucessos como, Quanto mais quente, melhor! (1959) e Se meu apartamento falasse (1960), a partir da fusão de dois episódios do autor, a personagem ganha um ar mais melancólico e blasé, lembrando o escritor irlandês, Oscar Wilde, mas não menos divertido e perspicaz.

Agora, ele tem sua intimidade colocada em risco quando uma conceituada bailarina russa o elege a pessoa perfeita para ser o pai de sua criança. Argumenta que ela entraria com a beleza e ele com a inteligência, numa proposta que tenho quase certeza, os roteiristas roubaram do célebre mal-entendido envolvendo a diva da dança, Isadora Duncan, e o dramaturgo, Bernard Shaw. Whatever…

Assustado, Holmes, interpretado aqui por (quem?) Robert Stephens, se defende dizendo que tal missão seria impossível de acontecer já que joga no mesmo time que o compositor, Tchaikovsky, ou seja, vive um caso ardente há cinco anos com o amigo, Watson. “Não sou misógino. Na verdade, eu não odeio as mulheres. Apenas não confio nelas”, justifica, sem muita convicção.

E tal dúvida perdura toda a trama rocambolesca que envolve ainda anões de circo, fujões, o mito do monstro do Lago Ness, integrantes do balé, o lago dos cisnes, um submarino britânico e uma espiã alemã. “Só o extraordinário me interessa”, diz meio esnobe o detetive.

Divertido e iconoclasta, A vida íntima de Sherlock Holmes, apresenta Billy Wilder no que ele tem de melhor, ou seja, em completa sintonia e harmonia com o roteiro, um dos departamentos dessa grande engrenagem que é o cinema em que ele sempre se deu bem e teve à vontade, mesmo não estando em seu auge.

* Este texto foi escrito ao som de: Tchaikovsky Swan Lake, complete ballet (André Previn – 1976)

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