Meryl Streep brilha em A dama de ferro

Só uma zebra daquelas tira o Oscar de Meryl Streep no próximo domingo

Guardo grande admiração, certo fascínio mesmo por mulheres fortes, de caráter obstinado e que, definitivamente, sabem o que querem. Uma pena que grande parte delas são sombreada pelo signo da soberba, do desprezo e da arrogância. Margaret Thatcher foi tudo isso e muito mais. Mas em seu caso, tais atributos faziam até sentido dentro de sua rotina, ou seja, da liturgia do poder que a cercava.

Bem, eu nem sabia disso tudo quando via aquela mulher de rosto expressivo, meio carrancudo e cabelo laqueado na televisão ao lado de Ronald Reagan e dos principais líderes do mundo ou de bobeira na Câmara dos Comuns em Londres. Na verdade, nem tinha noção de sua importância no cenário mundial, mas me simpatizava com a figura.

Uma simpatia que ganha proporções quase épicas e encontra razão de ser com o sucesso do filme, A dama de ferro, um dos destaques do Oscar deste ano. E não pelas indicações, que são apenas duas, mas pelo desempenho soberbo de Meryl Streep, a favorita ao prêmio de melhor atriz, impecável na pele da líder britânica. Portanto, é bom que se diga logo, o filme se resume ao talento surpreendente dessa atriz que começou fazendo filme, olha vejam, com Woody Allen.

“Sou uma espoja”, disse ela, modesta, minimizando o sucesso de seu desempenho magnífico. “Ela mudou os rumos da política, foi uma grande quebra de status quo”, acredita Streep.

Interessante a forma como a diretora Phyllida Lloyd conduz a narrativa dessa cinebiografia política, intercalando as memórias de uma mulher solitária, que teve o poder em suas mãos, por durante longos 11 anos, com o seu passado de glória. No filme, vida privada e vida pública se misturam e se complementam de forma despretensiosa, honesta.

Filha de dono de mercearia, desde jovem Margaret Thatcher teve que vencer as barreiras dos preconceitos, tanto de classe – por causa da origem proletária da família -, quanto de sexo, – devido ao secular machismo da sociedade inglesa.

Obstinada, tenaz e brilhante ela se impôs contra tudo e contra dos, tornando-se não apenas a primeira mulher líder do partido conservador, na Inglaterra, mas a primeira-ministra da Europa. Mais do que isso, foi a mulher mais poderosos do século 20 e, a cargo dessa importância, mudou a face da história.

A ascensão gloriosa de Thatcher é sublinhada no filme pela, em cenas de uma poesia visual emblemática, como a dos sapatos da poderosa primeira-ministra nadando na maré dos calçados sisudos masculinos. Ou quando ela trilha soberana, num corredor, cercada por homens.

“Eu não posso passar o resto da minha vida lavando louça de chá”, advertiu o marido, quando foi escolhida como esposa.

Para ajudar a contar essa história, imagens do final dos anos 70 e dos anos 80, se entrelaçam com as memórias de uma Thatcher fragilizada, assombrada pela velhice e o fantasma do marido morto, que sempre foi um cavalheiro, enquanto a mulher esteve à frente da maior potência europeia na época.

Momentos polêmicos de sua carreira, como o embate contra os trabalhistas, a posição ferrenha ao comunismo, que lhe rendeu o apelido, “dama de ferro”, e os conflitos com os argentinos na Guerra das Malvinas, não são negligenciados.

“Não negocio com criminosos e bandidos. Essa é uma guerra que começamos e que vamos terminar”, diz ela categoricamente, ao se desvencilhar dos americanos, que queriam uma saída diplomática. “Um dos grandes problemas do nosso tempo é que somos governados por pessoas que se preocupam mais com sentimentos do que com pensamentos e ideias. Pensamentos e Ideias. Isso me interessa”, ensina.

Controladora, Maggie, como era chamada cariosamente pelos admiradores e, jocosamente, pelos detratores, era uma mulher forte que escondia com astúcia o seu lado meigo, descontraído, uma faceta quase obscura distante dos holofotes do poder.

Com seu jeito sóbrio de vestir, era vaidosa ao extremo, mas completamente consciente da hora de sair em cena. Bem ou mal, é este lado que sobressaí em , A dama de ferro, e que Meryl Streep encarna tão bem.

* Este texto foi escrito ao som de: Sound affects (The Jam – 1980)



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