Varekai e o mito de Ícaro em Brasília

Evocando o mito grego de ìcaro, Varekai encanta o público com números como o dos russos alados

Levei minha afilhada para ver o Cirque du Soleil, ontem, numa sessão só para convidados. Ela adorou. Eu nem tanto. Achei chato e cansativo e nem um pouco com cara de circo. Mas o Cirque Du Soleil é isso. Uma mistura de espetáculos da Broadway com desfile de escola de samba e arte circense. O resultado é uma explosão de cores, movimentos arrojados e performances arrebatadoras, mas, no fundo, essa euforia das pessoas com relação às montagens da maior trupe do mundo, não passa de deslumbramento burguês.

Com estreia hoje em Brasília, para público pagante, Varekai é tudo isso e um pouco mais. Quarta montagem a desembarcar no Brasil, depois de Saltimbanco, Alegría e Quidam, o espetáculo encanta, deslumbra porque traz em sua essência, a arte do impossível, quando se trata de movimentos e superação dos limites do corpo, contudo, são apresentações que carecem de alma, no que diz respeito à emoção.

Desta vez, o mito de Ícaro entra em cena para falar da identidade nômade que existe dentro de cada um de nós. A própria origem romena do nome, “onde quer que seja”, evoca essa premissa. Assim, criaturas bizarras como ogros, anões, fadas, calangos gigantes, feras pré-históricas e palhaços entram em cena num clima de terror e magia. Confesso que minha afilhada ficou um pouco assustada no início.

Na verdade, não se entende muito os enredos, as mise en scènes do Cirque Du Soleil. Tudo é muito interativo e sensorial. O segredo é embarcar na viagem e deixar a imaginação correr solta e para isso é preciso ter uma imaginação de Jules Verne.

Acontece que quando as histórias da trupe canadense tende a ser intelectual e erudito demais, entedia. Quando a narrativa ganha contornos circenses, de fato, a interação com o público é imediata e espontânea. Daí o sucesso arrebatador dos clowns, eternos mestres do riso, que nessa montagem, estão nitidamente ligados com os trejeitos universais de Charles Chaplin.

O grandalhão norte-americano Gordon White, por exemplo, que encarna espécie de ogro guardião, é de uma simpatia comovente, quase infantil e munido de sensível criatividade cênica é capaz de dar vida e identidade lúdica a duas simples lâmpadas.

Já a dupla de palhaços, Mercedes Hernandez e Steven Bishop – ela argentina e ele australiano -, recorrem às estripulias do teatro de variedades para dar vida a um mágico sem talento nenhum e sua assistente redondinha atrapalhada. Talentosos, os dois artistas voltam em cena em diversos quadros, para alegria do público e, com certa dose de sofisticação, arranca gargalhadas trepidantes em momentos como aquele em que Bishop, nunca caricatura do cantor belga, Jacques Brel, duela pela atenção do público e da mira do canhão de luz, sem sucesso. Absurdamente simples, mas sensacional.

As performances dos artistas asiáticos mirins também são de tirar o fôlego, assim como dos acrobatas suspensos no ar. Ainda mais depois do recente acidente com o cabo de aço envolvendo o elenco da peça, Xanadu, no Rio de Janeiro. Não dá para não ficar com um frio na barriga quando vemos aqueles pássaros humanos voando por cima de nossas cabeças.

O gran finale, com os movimentos aéreos dos russian swings, levou a plateia ao delírio e tinha razão de ser. Usando futuristas pranchas de aços, 12 vermelhos demônios alados alçavam seus voos mirabolantes, como quem desafia a lei da gravidade, a lei do espaço, a lei dos pássaros.

No Cirque du Soleil, mesmo você não entendendo nada, faz um tour divertido além da fronteira da imaginaçãonão entender nada, mas e daí? Arte não é para entender e sim para sentir. That’s entertainment, já dizia o poeta urbano, Paul Weller.

No festival de movimentos e vigor físico, nada supera os russos alados e suas pranchas futurísticas. São dozes demônios rubros bailando no ar em seus mirabolantes voos que desafiam a lei da gravidade, do espaço e dos pássaros. E porque, não, da imaginação. Cirque Du Soleil é isso, uma viagem além da fronteira da realidade. Você entendendo ou não.

* Este texto foi escrito ao som de: We’re only in it for the money (Mothers of invention – 1968)

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