Jairo Ferreira e o cinema de invenção

“Chupo filmes para renovar meu sangue”, gostava de provocar Jairo.

Até parece provocação, mas a mostra, Jairo Ferreira – Cinema de Invenção, estreia no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) de Brasília, justamente na semana da grande festa do cinema mundial, o Oscar – o que para os entendidos, nada mais é do que sinônimo de convencionalismo no mundo cinematográfico -, ou seja, o oposto do que foi o agitado e contestador Ferreira.

Enfim, coincidência ou uma dessas peças que o mundo das artes e da cultura adora nos pregar, o fato é que o crítico de cinema, cineasta, ator, fotógrafo de cena, poeta e jornalista paulistano, Jairo Ferreira (1945 – 2003), foi um dos mais ativos e importantes pensadores da arte em película, autor do cultuado livro, Cinema de invenção, corrente marcada pelo experimentalismo criativo. Resumindo, Jairo Ferreira é sinônimo de Cinema Marginal e ponto final.

Logo, a mostra que acontece de hoje até 04 de março em Brasília, apresenta os principais filmes do movimento – mais de vinte títulos -, obras como os clássicos, A mulher de todos, de Rogério Sganzerla – ícone do cinema marginal – além de A herança, de Ozualdo Candeias, Jardim da guerra, de Neville d’Almeida, e o marco do gênero, Limite, de Mário Peixoto.

Contudo, a grande surpresa do encontro fica por conta mesmo da exibição da raríssima filmografia do diretor, formada por dois longas-metragens, um média e seis curtas, a maior parte rodados em Super-8, num período que vai de 1973 a 1980. “Chupo filmes para renovar meu sangue”, gostava de provocar.

Realizados artesanalmente, seus trabalhos nunca foram exibidos comercialmente e a mostra Jairo Ferreira – Cinema de invenção dá a oportunidade de quem não vive sem cinema e tem fome de novas descobertas, de conferir toda sua filmografia reunida num único espaço. Uma chance realmente ímpar aos amantes do cinema de provocação, de contestação, de invenção.

São filmes como O guru e os guris e Ecos caóticos, este último uma homenagem experimental ao poeta maranhense, Sousândrade. Também é destaque do encontro o media-metragem, Horror Palace Hotel, em que Jairo Ferreira colhe depoimentos dos principais nomes do cinema de horror no Brasil como, José Mojica e Ivan Cardoso.

Um pensador e artista à margem da margem do cinema, Jairo Ferreira pregava que o exercício cinematográfico tinha que ser um constante trabalho de experimentalismo narrativo, estético e criativo. Características que marcaram verticalmente a cinematografia do cinema marginal, corrente que remava contra todos os dogmas e preceitos selvagens do cinema comercial. Daí a máxima do poeta norte-americano, Ezra Pound, pontuar seus anseios e ambições como criador e estudioso da sétima arte. “Inventores são homens que descobriram um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo”.

* Este texto foi escrito ao som de: Clara Crocodilo e Tubarões voadores (Arrigo Barnabé – 1980/1984)

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