JT – Um conto de fada punk

Natália Lage questiona o culto à imagem vivendo no palco personagem maldito que transita entre a ficção e a realidade

“No futuro todo mundo terá seus 15 minutos de fama”, vaticinou certa vez, um dos ícones da cultura pop art, Andy Warhol. E não deu outra. Talvez seja por isso que a personagem central da peça, JT – Um conto de fada, em cartaz a partir de hoje no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), guarda certa semelhança com o célebre pintor e cineasta norte-americano, não fosse o fato bizarro, dela se parecer mesmo com o artista.

De qualquer forma, verdades e mentiras, ficção e realidade, a poderosa maquiagem do simulacro são alguns dos temas que norteiam essa polêmica montagem baseada na surreal história de Jeremiah “Terminator” LeRoy. Vendido pela escritora, Laura Albert, como um demente drogado, meio travesti, meio andrógeno ele resolve, da noite para o dia, botar no papel seu passado de precoce tragédia pessoal. “A ficção é mais interessante do que a realidade”, admite um dos personagens em cena.

Acontece que JT LeRoy nunca existiu de verdade, nada mais foi do que um pseudônimo criado por Laura Albert no papel e que tem vida de carne e osso por meio da atriz e modelo, Savannah Knoop, que aceitou viver toda essa farsa punk. Desmontado o imbróglio, o que sobrou foi o sangue maculado de uma sociedade aviltada pela doença da exposição gratuita e pelo apelo desenfreado da mídia, do culto à imagem, maledicentes desejos dos nossos dias de intensa superficialidade.

“Em plena ‘geração da imagem’, para vender livros, o escritor precisa ler em livrarias, aparecer no jornal e na televisão. (…) E se a história do livro for a história de sua vida, então, é bem possível que ele encontre o sucesso”, reflete Luciana Pessanha, autora do texto da peça que teve como diretor geral, ninguém menos do que Paulo José, que prestigiou ontem, a sessão para convidados.

A personagem título é vivida em cena por Natália Lage (a Gina de A grande família), que divide o palco com outros quatro atores, destaque para Débora Duboc. Embora apresente uma narrativa visceral e iconoclasta, as atuações estão meio frias, diria que até fakes, mas talvez seja o nervosismo da estreia, já que a peça foi lançada nacionalmente em Brasília.

De dentro de um cenário sujo, underground, ícones da cultura pop contemporânea como Bono Vox, Madonna e Courtney Love, pagam o mico de alimentar o mito em torno de uma figura de mentira, em entrevista onde suas vozes são dubladas sem muita crediblidade, de forma visivelmente irreal.

A própria mise en scène do espétaculo tem uma pegada com gosto de realidade desbotada. Será que, assim como a persona vivida na trama, JT – Um conto de fada punk é propositalmente artificial?

* Este texto foi escrito ao som de: The Clash (1977)

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