Os desenhos animados da nossa infância

No clássico desenho, Pateta é um pacato cidadão mudado pelo trânsito

Outro dia, motivado por uma notinha sobre “carros simpáticos” na coluna brasiliense, Eixo Capital, fiquei motivado a escrever e escrevi um post sobre os dez carangos máquina quente que marcaram minha vida, da infância até hoje. Recorri ao esquema para falar sobre os desenhos que fizeram minha cabeça na infância.

Tem de tudo aqui, animações de todos os gêneros e estilos, com os personagens mais marcantes e aqueles obscuros, quase cult, para não dizer cult mesmo. Assim como as histórias em quadrinhos, os desenhos animados são nossas primeiras informações com o mundo das artes, da cultura, do entretenimento. Nosso elo inicial com o admirável mundo da imaginação.

Alguns desenhos têm um valor sentimental e importância emblemática para minha formação de jornalista cultural. Outros moram dentro do meu coração como pequenas, mas verdadeiras peças de ternura e encanto.

Guardo com carinho em meu galpão de nostalgia, por exemplo, de vários desenhos da Disney como aquele em que o Pluto e seus filhotes são alvejados por jatos de tinhas esquizofrênicos num galpão de ferramentas. Ou ainda de uma animação do Pateta no trânsito, antiga, mas bastante atual em que ele encarna um sujeito pacato e dócil que vê sua personalidade mudar radicalmente, diante do estresse das vias cheias de veículos barulhentos.

Bem, espero que algumas dessas pequenas preciosidades da animação tenham feito sua cabeça também. E, antes de terminar por aqui, descobrir, pesquisando informações para este post, que minha infância foi marcada pela genialidade da dupla de cartunista, Hanna-Barbera. A minha infância e a do Renato Russo. “Eu tenho autorama/Eu tenho Hanna-Barbera/Eu tenho pêra, uva e maçã/Eu tenho Guanabara E modelos Revell”, cantava o poeta em, 1965 (Duas tribos).

É isso aí pessoal!

Marinheiro Popeye (1929)

Inspirado num homem caolho que existiu de verdade e costumava limpar o bar da infância do cartunista norte-americano, Elzie Crisler Segar, o marinheiro Popeye é um dos personagens de desenho animado mais queridos da garotada da minha geração. Durante muito tempo eu queria saber qual era o gosto do espinafre, o tal fortificante natural do herói, só por causa dele. E quer saber, provei a tal erva e não gostei, mas isso não fez diminuir meu carinho pela animação que chegou a ser adaptada para o cinema por Robert Altman. Quem encarnou o marujo caolho? Robin Williams.

Perturbado pelo mal-encarado Brutus e louco de pedra pela magrela e feita Olívia Palito (tem gosto para tudo), Popeye foge e muito dos padrões dos heróis convencionais, mas ganha o público pelo carisma espontâneo. Alguém aí se lembra de um episódio específico em que menino real de uma plateia de cinema lhe atira uma lata de espinafre para tirar o marujo de enrascada? Bem, é a magia dos desenhos animados unindo fantasia e realidade.

Super Mouse (Anos 40)

Poxa, não sei por que as pessoas, sobretudo as mulheres, têm medo ou nojo dos ratos, eles são tão bonitinhos… Sim, porque existe coisa mais fofa do que o Mickey Mouse?

Bem, eu ainda chupava pirulito e ia de lancheira para escola quando me apaixonei pelo destemido, Super Mouse. Criado nos anos 40, sua histórias foram relançados no Brasil nos anos 70 e 80, mas não lembro muito dos episódios, não. Para falar a verdade nem sei direito quem era o principal vilão dele, mas não me esqueço de um enorme telescópio que ele tinha, de sua capa vermelha e a roupa amarela, sem falar, claro, da sensacional e inesquecível música tema: “Super Mouse é seu amigo, vai salvá-lo do perigo”.

Smurfs (1958)

Os azuis mais fofos da animação só podiam surgir mesmo num país de língua francesa, no caso, a Bélgica. Idealizado pelo ilustrador Peyo (Pierre Culliford), o desenho só chegou ao Brasil na década de 80, graças à iniciativa – olha veja só -, da dupla Hanna-Barbera e a produtora deles.

Pequeninos, os Smurfs são criaturinhas adoráveis que vivem em casas de cogumelo no meio da floresta, num clima campestre mágico que remete a Idade Média. Eles vivem fugindo do arquiinimigo Gargamel e seu gato Cruel, quando não se envolvem em confusões internas.

O meu smurf preferido era o Robusto, aquele que tinha um coração vermelho com uma flecha no braço, embora eu ficasse encantava com as engenhocas inventadas pelo Engenhoso.

Enfim, gostei muito da recente adaptação que fizeram para o cinema, mas prefiro mil vezes, por mais toscos que sejam, os desenhos dos Smurfs das minhas matinês.

Flinstones (1960 – 1966)

Sua grossura estava pau a pau com a dos homens das cavernas o que, de certa forma, ele era mesmo. Mas a rabugice era de uma infantilidade incômoda e, no fundo, no fundo, Fred Flinstone, tinha um coração que não era de pedra. Não duvide, o grandalhão guloso era a doçura em pessoa. “Vilmaaaaaaaaaaaaaaaaa”, gritava, quando estava zangado ou em apuros.

Criados em 1960, pela dupla de cartunistas norte-americanos, William Hanna e Joseph Barbera, o desenho, traduzido em mais de 22 idiomas, foi um sucesso na tevê norte-americana entre os anos 60 e 66, foi visto por mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo.

Na trama, o cotidiano de uma família de classe média comum que enfrenta os problemas normais da vida. Os bambinos, Pedrita e Bam-Bam eram uns fofos, a ingenuidade sonsa de Barney divertida e a Betty, sua esposa, uma gatinha. No mais, Yabadabaduuuuuuuuu….

Scooby-Doo (1969)

Scooby-Doo é o desenho animado predileto da minha afilhada de 12 anos. Nossa como ela adora o Salsicha e aquele cão dinamarquês medroso. Produzido pela dupla, Hanna-Barbera, o desenho de 1969 é criação do norte-americano de ascendência japonesa, Iwao Takamoto.

Nas tramas, marcadas por grandes reviravoltas, os adolescentes Fred, Velma, Daphne e Salsicha, junto com o grandalhão Scooby-Doo, tiram onda de Sherlock Holmes e sem metem nas mais incríveis aventuras, a bordo do furgão, Máquina mistério. Movidos pela curiosidade e espírito desbravador, estão sempre resolvendo os casos mais absurdos, todos envolvendo criaturas bizarras como bruxas, múmias, esqueletos e fantasmas. “Salsinha meu filho, me tira daqui!!!”, era o bordão do medroso mais amado do pedaço.

Superamingos (1973 – 1975)

Enquanto isso… Na sala de Justiça

Na coluna, Eixo capital, das jornalistas, Ana Maria Campos e Lilian Tahan, tem um espaço intitulado assim: Enquanto isso na Sala de Justiça… Então, bem sacado e descolado, tal toque pop emprestado a esta página semanal do Correio Braziliense é uma prova de que esse grande sucesso criado pela dupla, Hanna-Barbera (sempre eles), marcou gerações. Sempre tive vontade de perguntar às duas se elas eram tanto fãs assim do desenho, mas como sei que vou levar aquela patada…

…Enfim, baseado na série, A liga da Justiça, o desenho reunia os mais poderosos super-heróis da DC Comics que, juntos, uniam suas forças na luta contra o crime e o mal, claro, defendendo os interesses da humanidade.

Com toque de Midas, William Hanna e Joseph Barbera pegaram carona na bem sucedida empreitada e criaram especialmente para a série, novos personagens, entre eles, o grandalhão, Chefe Apache, Samurai, Vulcão Negro e os Super Gêmeos: “Super gêmeos, ativar! Transforme em…”, lembram?

Então, o Batman sempre foi meu super-herói preferido, mas nos Superamigos, tinha um queda pelo, Lanterna Verde, o Homém-Águia e o Aquaman, o rei de Atlantis.

Caverna do Dragão (1983 – 1986)

Dizem que os joguinhos de RPG homônimos que deram origem ao desenho, Caverna do Dragão, foi inspirado nas aventuras do escritor britânico, J. R. R. Tolkien. Se isso é verdade eu não sei, mas e daí? Também não dizem por aí que as canções do Led Zeppelin são sombreadas pelo universo do criador da série, O senhor dos anéis? Bem, que os “naiffes” da vida me ajudem a solucionar essa dúvida.

Por ora, vale dizer que o desenho, sensacional, era fantasia pura, com suas criaturas medonhas, como a besta de cinco cabeças, Tiamat, o baixinho misterioso Mestre dos Magos e o temido Vingador. Um episódio marcante era aquele que tinha um vilão que era uma espécie de Merlin cercado por uma alcateia de lobos. O velhinho era obcecado por chifres de unicórnios e queria tira o da Uni, o mascote da turma. Já viu né?!

Ah, sim, o Eric, o jovem burguesinho chato e esnobe com o escudo estilo “cavaleiro da Távola Redonda”, era o mais pé no chão dentro daquela loucura toda e eu achava a sardenta Sheila, uma gatinha.

Preste atenção às referências bíblicas envolvendo o episódio do anjo Lúcifer, nas conversas veladas entre o Mestre dos Magos e o Vingador.

He-Man (1983)

“Pelos poderes de Grayskull”, pronto, era a senha para o pacato e sensível Príncipe Adam se transformar no homem mais forte do planeta, o musculoso, He-Man. Personagem da linha de brinquedos, Masters of the Universe, o herói invadiu nossas telinhas nos idos dos anos 80. Misturando estética medieval com apetrechos futurísticos, as aventuras giravam em torno da rivalidade entre He-Man e o feioso, Esqueleto, um dos vilões mais bem construídos dos desenhos animados.

Aliás, os vilões desse desenho eram os mais divertidos. Além do, “cabeça de osso”, Esqueleto, a “montanha de músculo” tinha com desafetos: Mandíbula, o cara de sapo, Aquático, o Home-Fera e a gostosona, Maligna.

Do lado do bem, gostava do rabugento, Gato Guerreiro, uma espécie de gladiador felino, e do mágico Gorpo. Quem não se recorda do episódio em que ele e a namoradinha, Driele, cantam a contagiante canção: “O bem vence o mal, espanta o temporal, o verde e o amarelo, tudo é muito belo”.

Thundercats (1983)

Com o perdão do trocadilho, o Lion-O era um gato, mas eu gostava mesmo era do Panthro, o pantera mal-humorado e pragmático. Mas ainda tinha a gostosa da Cheetara, o home do chicote, Tygra, os irmãos gêmeos, Wilykit e Wilykat e o divertido gatuno, Snarf, além da alma penada, Jaga, espécie de oráculo do passado e do futuro da turma de gatunos.

Eles são sobreviventes do planeta de Thundera no Terceiro Mundo e juntos, com suas habilidades específicas, combate o mal, personificado na figura do monstrego, Mumm-Ra, uma múmia de arrepiar, sempre assessorada por capangas medonhos como o sapudo, Escamoso e um cão-hiena ladino chamado, Chacal.

Bem, todo mundo queria ter a espada Justiceira do Lion, mas eu não. Eu me amarrava mesmo era no nunchaku (arma marcial de origem chinesa) do, Panthro, um ás das artes marciais e das tecnologias. Era ele o cérebro por trás das engenhocas dos gatos guerreiros como o possante thunder tanque.

“Thunder, thunder, thundercats oooohhhhh!”.

Os cavaleiros da luz mágica (1987)

“Pela mão da natureza, da arte que prepara, o que antes era um, agora se separa”. Caramba, nunca me esqueci dessa frase evocada por um dos heróis do mítico e obscuro desenho, Os cavaleiros da luz mágica ou Visionários. O nome do personagem que dizia a sentença eu jamais gravei, só sei que ele grandão, zangado e tinha o poder do gorila, animal que trazia gravado em seu totem mágico.

Aliás, cada personagem carregava um estandarte com a imagem da fera que refletia sua personalidade. Apesar de dividirem em dois grupos, os cavaleiros espectrais e os senhores da escuridão, num mundo que também lembrava os tempos medievais, não pareciam ser frutos de uma guerra maniqueísta.

O desenho tinha um enredo bem original e mal sabia eu que a animação tinha origem na rede de brinquedos homônimos da Hasbro.

Outros poderes

“Mergulho meu cetro nos ventos do morro e com pés velozes sobre a terra eu corro!” – frase do Leopardo.

“Vontade e pensamento, isto é poder, acorde minha mente para o grande saber” – frase da Águia.

“Flecha pontuda, espada letal, que nada penetre nesta carcaça mortal” – frase do Tatu.

* Este texto foi escrito ao som de: Headquarters e More of the Monkees (The Monkees – 1967)

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