A Moreninha: 1º romance brasileiro

Joaquim Manuel de Macedo: médico e escritor

Minha afilhada de 11 anos chegou da escola com um livro debaixo do braço e disse mais ou menos assim:

– Ó o que ganhei na escola hoje, Padrinho?! Na verdade, era um estojo de lápis com uma cadernetinha. Mas meu colega pediu “pra” trocar porque ele disse que esse livro é “de mulher.” É?!

Sabe qual era o título? A Moreninha, romance de 1844 escrito por Joaquim Manuel de Macedo. Criança é fogo mesmo. Sempre me surpreendo com a sinceridade delas.

Bom, nunca tinha lido essa obra. Na verdade sempre confundia o autor de A Moreninha com o cara que escreveu Memórias de um Sargento de milícias que é o Manuel Antônio de Almeida. Nada a ver. Esse eu também não li, embora esteja dando sopa ali na minha estante mágica.

A verdade é que essa história toda, essa confusão toda me motivou a ler A Moreninha, esse mesmo, que a minha afilhada trocou com o coleguinha na escola e já estou quase no fim. Faltam só alguns capítulos e quando você estiver lendo esse post, provavelmente eu já terei terminado o romance do velho Joaquim.

A obra é um daqueles clássicos títulos que todo mundo fez careta algum dia e esperneou batendo os pés no chão quando a professora ou professor de Literatura pediu para gente ler no Colegial. Eu mesmo não conseguir ler obras como Senhora e Lucíola, ambos de José de Alencar, que na época eram uma chatice só. Pelo menos eu achava.

Hoje quem sabe eu até os leria, porque A Moreninha é muito divertido. Bobinho, mas prazeroso, uma leitura agradável, gostosa. A história gira em torno do romance entre Augusto e Carolina, a heroína do título. Mas também abriga os anseios de uma turma de amigos estudantes que partem para a Ilha de Paquetá em busca de aventuras amorosas e dos prazeres da vida.

Mas, apesar de, aparentemente, ingênuo, A Moreninha é um marco da literatura brasileira por ser o primeiro romance escrito no Brasil, numa época em que literatura de verdade e tida como séria era, basicamente, a poesia. Com sua narrativa carregada de amores platônicos, suspiros juvenis e “lendas” de um Brasil ainda preso às heranças coloniais, com escravos, saraus em Corte e tudo o mais, a obra surge como um suspiro de renovação num gênero que, até então, era mérito dos autores estrangeiros.

Médico de formação, Joaquim Manuel de Macedo abriu um novo horizonte na literatura brasileira com seu folhetim escancaradamente romântico. Para quem algum dia viveu um grande amor platônico da infância e juventude, assim como eu, essa novela será um deleite encantador.

Emocionei-me bastante com a passagem em que os dois personagens centrais se conhecem ainda meninos, zanzando pelas areias dessa ilha paradisíaca. Assim como o instante em que eles se reencontram anos depois, sem saber que, de fato, são os mesmos namoradinhos de tempos ingênuos. Um segredo que, num primeiro instante, o autor reservou somente aos seus leitores. A cena em que o apaixonado Augusto se esconde debaixo da cama, enquanto quatro adoráveis amigas aprontam e bordam no quarto sem saber de sua presença, é uma delícia de irreverente.

Enfim, a poucas páginas de terminar essa agradável história, deixo como lição o equívoco do coleguinha da minha afilhada que, por preconceito de menino, preconceito ingênuo, perdeu a chance de ter em sua estante uma boa trama. Por isso que sempre digo, assim como as pessoas, não subestime os livros pelo título, capa e qualidade do papel. Não vacile, na dúvida, leia os clássicos. Se bem não fizer, mal também não fará.

* Este texto foi escrito ao som de: Uns (Caetano Veloso – 1983)

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