Síndrome de Caim e Abel no rock ‘n’ Roll

Os irmãos Dave e Ray (no centro) eram a alma e o dínamo dos Kinks

Não olhe agora, mas já faz um bom tempo que a síndrome de Caim e Abel toma conta da cena roqueira. Quer vê? O trio fraterno dos Bee Gees, os Gibb, os explosivos brothers do Creedence Clearwater Revival, os cínicos Reid do Jesus and Mary Chain, os raivosos irmãos Gallagher do Oasis. Mas nenhuma união fraterna foi tão impactante e importante no gênero musical do que a dos irmãos Ray e Dave Davies, dos Kinks.

Uma biografia exibida recentemente no canal por assinatura VH1 realçou essa importância. No pequeno, mas incisivo documentário, a dupla é pincelada como irmãos de personalidade e talentos diferentes, mas unidos por um mesmo propósito: o amor pela música e a busca desenfreada pelo sucesso e o reconhecimento musical.

O grupo surgiu no Norte de Londres no início dos anos 60 e, como a maioria das bandas da época, buscava o estrelato seguindo a estrada dos tijolos amarelos trilhada pelos meninos de Liverpool, os Beatles, e “sujos” Stones. A explosão aconteceria em 1964 com o megasucesso You really got me, talvez o primeiro hit hard rockda história, mas eles morreriam na praia depois que seguiram em turnê pela América. Ninguém até hoje entendeu muito bem direito porque a banda não conseguiu embarcar na onda de sucesso da dupla Lennon e McCartney, Jagger e Richards.

Nesse documentário exibido pela VH1, algumas teorias sobre o tema são lançadas a ermo, tudo sem consistência, como a má fé dos agentes da banda e uma briga de um dos integrantes dos Kinks com membros do poderoso sindicato musical norte-americano.

Sem explodir na América, o que significava explodir no resto do planeta, os irmãos Ray e Dave e os outros integrantes da banda Pete Quaife e Mick Avory, voltaram para pátria mãe e se tornaram verdadeiros patrimônios musicais da Inglaterra a reboque de discos clássicos como Face to face (1966) – o meu preferido -, Something else by the kinks (1967), The Village Green preservation Society (1968) e Arthur – Or the decline and fall of the British Empire (1969).

Sim, porque nenhuma banda inglesa cantou com tanta propriedade o cotidiano do cidadão britânico comum do século 20 como os Kinks. Com letras elegantes, em grande parte lapidada com tocante lirismo proustiano e melancolia terna, a banda deu voz e musicalidade às ruas da Inglaterra e à rotina do povo inglês. “Aposto que você está gordo, casado e sempre vai para cama por volta das oito e meia da noite”, diz a letra de Do you remember Walter, um dos sucessos de The Village Green preservation Society.

Líder e principal compositor do grupo, Ray Davies, o mais talentoso e introspectivo dos irmãos, chegou a levar um tiro na perna nos Estados Unidos, em 2004, logo após a dissolução dos Kinks. O incidente foi motivado depois que ele correu atrás de um ladrão que havia roubado sua carteira nas ruas de Nova Orleans. “Seja como eu e seja infeliz”, escreveu ele certa vez.

Já Dave, o mais rebelde e inquieto, hoje também toca projetos solos que envolvem, entre outras coisas, trabalhos com música, literatura e audiovisual. Mesmo diante das diferenças com o irmão mais velho, ele sonha um dia em ver uma das bandas mais emblemáticas e britânicas dos anos 60, juntos novamente no palco, nem que seja por uma única vez.

* Este texto foi escrito ao som de: Something else by the Kinks (The Kinks – 1969)


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2 comentários sobre “Síndrome de Caim e Abel no rock ‘n’ Roll

  1. Acho que já tinha visto o nome dessa banda em algum lugar por aí.muito legal ficar conhecendo a história deles.teu texto como sempre e primoroso e faz iajar em um oceano de conhecimento e poesia!!tenha vida longa e muito sucesso!!

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