Marilyn Monroe no divã

Marilyn Monroe: Uma estrela que tinha luz mas já não brilhava

Quando Marilyn Monroe morreu, em 05 de agosto de 1962, aos 36 anos, o escritor e jornalista Truman Capote não perdoou. “Marilyn, Marilyn, porque tinha que acabar assim? Porque essa vida tão podre?”, escreveu. A frase venenosa não poderia ser mais cruel. Ainda mais vindo de alguém tão próxima à estrela hollywoodiana. Um dos maiores sex symbol que o cinema norte-americano já criou, Marilyn Monroe já nasceu morta. Pelo menos o mito. Talvez por isso, assim como James Dean, seja eterna.

Um documentário bastante interessante que está sendo exibido este mês no GNT mostra como a diva dos anos 50 e 60 era uma figura frágil, angustiada, extremamente atormentada e prisioneira das drogas e dos remédios. Uma produção francesa escrita pela dupla Patrick Jeudy e Michel Schneider, Marilyn no divã traça uma radiografia intricada e curiosa sobre a artista a partir dos 30 meses de psicanálises feitos com o Dr. Ralph Greenson, o último médico a cuidar da atriz até sua misteriosa morte, após ser encontrara em seu quarto, em Beverly Hills, entupida de barbitúricos e outras pílulas.

Uma fita de 40 minutos gravada em noites de insônia por Marilyn poucos dias antes de morrer e deixada para o seu psicanalista foi transcrita por seu assistente, cujo nome me parece ser John Mainer ou algo assim. Não consegui pegar esse detalhe tão importante, por sinal. Esse sujeito, num dia qualquer de agosto de 2005, mês em que normalmente uma névoa rosa de poluição cobre a cidade de Los Angeles, entrou desnorteado na sede do Los Angels Times com um material debaixo do braço e entregou ao jornalista Forger D. Baderwright. Era um homem velho que tinha uma história velha para contar.

Marilyn Monroe entre Montgomery Clift e Clack Glabe, em Os desajustados

São desses encontros e desencontros entre Marilyn e seu psicanalista que se desenrola o documentário, um material consistente e cheio de indagações pertinentes em torno da enigmática figura de Marilyn e de sua obscura morte. “O que teria matado Marylin Monroe: o cinema, o sexo, a política, a loucura ou a psicanálise?”, pergunta a narradora.

Psicanalista dos artistas de Hollywood, numa época em que fazer análise era moda na Meca do cinema, um lugar onde as psicoses, neuroses e perversões invadiam a vida dos astros, Ralph Greenson manteve uma relação quase paternal com Marilyn ao longo de intermináveis terapias. Ele se assustava com o jeito estranho da artista de falar de coisas doloridas sem dor. “Marilyn tornou-se para mim minha filha, minha dor, minha loucura”, contaria Greenson, um renomado intelectual na Europa que dava aulas de psiquiatria na Universidade de Los Angeles.

O estilo de vida autodestrutivo e desnorteado de sua paciente também o deixava deprimido. Greenson se espantava, por exemplo, com o desejo desenfreado de Marilyn por sexo casual, uma rotina confirmada quando policiais apresentaram ao psicanalista, acusações contra ela por fazer amor em lugares públicos. “Como um afogado que leva a pessoa que a salva para o fundo, Marilyn estava arrastando Greenson para o fundo, para a escuridão, para o vazio de sua vida”, diz mais uma vez a narradora.

O psiquiatra Ralph Greenson: "Ela era minha filha, minha dor, minha loucura".

Realizado em 2005, Marilyn no divã não traz depoimentos e entrevistados. Apresenta os fatos por meio de cenas ficcionais, reportagens da época, imagens de filmes e do dia a dia da atriz, além de muitas fotografias e registros raros, como a famosa apresentação em que ela canta Parabéns para você ao presidente Kennedy, no seu aniversário de 45 anos, e os bastidores do último filme que viria a fazer: o niilista Os desajustados, de John Huston. O roteiro, por sinal, era assinado pelo dramaturgo Arthur Miller, marido de Marilyn e que na trama deixa transparecer todo o ódio e amor que sentia pela mulher que dividia a cama.

Algumas passagens da vida da diva são reveladoras, como o período em que ela ficou internada numa clínica psiquiátrica, numa ala para pessoas esquizofrênicas, lugar que chegou tão drogada que ela nem se lembraria de ter assinado a ficha de internação. Não deixa de ser triste ouvir a voz definhada e cansada de Marilyn nos seus últimos dias de vida, uma estrela que muitos ainda poderiam ver sua luz, mas que já não brilhava. “Marilyn era uma deusa insensível que podia matar ou partir seu coração apenas com um sorriso”, diz uma voz no sombrio documentário.


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