Oswald Andrade e o tropicalismo

As ideias modernistas do escritor Oswald de Andrade inspiraram a Tropicália

Caetano Veloso nunca escondeu de ninguém que o Tropicalismo, movimento musical que ele ajudou a criar na década de 60, teve raízes profundas na corrente modernista da década de 20 e no Manifesto Antropófago idealizado, por volta de 1928, pelo escritor, poeta, jornalista e agitador cultural Oswald de Andrade. A referência está evidente e explícita nas páginas de Verdade tropical, ensaio memorialístico escrito pelo cantor e compositor baiano em 1997.

O ponto de convergência entre essas duas escolas seria a peça O rei da vela, trabalho escrito por Oswald de Andrade em 1933 e montado pela primeira vez num palco brasileiro pelo anárquico diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa em 1967, 30 anos depois da publicação do texto em livro. “Fui ver O rei da vela cheio de grande expectativa. Mas não imaginava que iria encontrar algo que era ao mesmo tempo um desenvolvimento dessa sensibilidade e uma sua total negação”, lembra Caetano em seu livro. “Assistir a essa peça representou para mim a revelação de que havia de fato um movimento acontecendo no Brasil. Um movimento que transcendia o âmbito da música popular”, escreve.Tarsila do Amaral pintou o quadro Abopuru (foto) e o deu de presente de aniversário para o marido Oswald de Andrade

Entusiasmado, tirei da minha estante empoeirada a reedição novinha da Editora Globo da peça O Rei da vela e li num único dia. A história gira em torno de Abelardo I, um agiota inescrupuloso com ideias capitalistas que é capaz de passar por cima de tudo e de todos só para aumentar seus lucros. Ganha dinheiro até com a desgraça alheia. “Num país medieval como o nosso, quem se atreve a passar os umbrais da eternidade sem uma vela na mão? Herdo um tostão de cada morto nacional”, vangloria-se, em determinado momento, o tacanho personagem.

Repleto de figuras caricatas, extravagantes, que pavoneiam seus absurdos e devaneios tropicalistas dentro de uma realidade asfixiante, espremida entre a utopia de um comunismo inatingível e o delírio egoísta do capitalismo, a peça, montada na época pelo Grupo Oficina, surgiu como uma metáfora perfeita para aqueles densos, sufocantes anos de repreensão.

“Senilidade mental nossa? Modernidade absoluta de Oswald? Ou pior, estagnação da realidade nacional?”, escreveu na época José Celso Corrêa. “Eu havia lido o texto há alguns anos e ele permaneceu mudo para mim. Me parecia modernoso e futuristóide. Mas mudou o Natal e mudou eu. De repente, O rei da vela iluminou um escuro enorme do que chamamos realidade brasileira, numa síntese quase inimaginável. E ficamos bestificados quando percebemos que o teto deste edifício nos cobria também”, explicou.

Dei boas gargalhadas com os discursos, frases e rompantes delirantes, com os disparates hediondos dos personagens Oswaldianos, quase uma versão paulistana das “personas” idealizadas por Dias Gomes em O bem-amado. “Descobri e incentivei a regressão, a volta à vela… sob o signo do capital americano”, exclama Abelardo I, o herói marginal de O rei da vela.

Há quem diga que esse texto de Oswald de Andrade, encenado em três atos, seja a primeira peça do teatro moderno, mas acredito que do ponto de vista da narrativa, do texto, do conteúdo anárquico já que no que diz respeito à montagem cênica, Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, é o pioneiro imbatível. Sei lá, posso está escrevendo bobagem na minha santa ignorância sobre assuntos teatrais.

Enfim, lendo a cronologia de Oswald de Andrade no livro O rei da vela, esse novinho em folha que tenho da Editora Globo, pesquei curiosidades deliciosas como a que envolve o famoso quadro modernista Abopuru, de Tarsila do Amaral – nome em tupi guarani que significa, meio que antropofagicamente, “aquele que come”. A pintura foi um presente de aniversário da artista ao escritor, na época seu marido e o nome exótico fora bolado pelos dois.

Montagem de 1967 da peça O rei da vela, dirigida pelo anárquico diretor José Celso

Aliás, influente intelectual de seu tempo, Oswald de Andrade, um homem culto e com talento nato e entendimento para as artes, em todos os seus segmentos, foi cicerone de grandes nomes da cultura mundial que estiveram no Brasil na sua época como os escritores franceses Lévi-Strauss e Blaise Cendars, o cineasta norte-americano Orson Welles e o desenhista Walt Disney, além do arquiteto franco-suíço Le Corbusier e do poeta Chileno Pablo Neruda. Saber disso me despertou uma grande curiosidade para ler a biografia do artista paulista escrita pela acadêmica Maria Augusta Fonseca.

Outra coisa que descobri lendo a cronologia de Oswald em O rei da vela, é que a escritora anarquista Patrícia Galvão, a Pagu, escreveu um romance intitulado Parque industrial, título que o tropicalista Tom Zé pegou emprestado para uma música sua que faz parte do disco Tropicália ou Panis et circencis, de 1968, gravado, tomem nota, exatamente 40 anos depois de Oswald de Andrade escrever o Manifesto Antropofágico. Como se vê, o tropicalismo surge na história da música popular brasileira como uma espécie de parente distante, mas não menos importante do modernismo.

Como diria o poeta maranhense Ferreira Gullar, sobre a importância da influência que o trabalho do arquiteto franco-suíço Le Corbusier teve na trajetória de Oscar Niemeyer: “Na cultura, assim como na vida, tudo é herança e transformação”.

* Esse texto foi escrito ao som de: Tropicália ou Panis ET circencis (Movimento tropicalista – 1968) e Uma outra estação (Legião Urbana – 1997)

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