Paul Newman numa sinuca de bico

Paul Newman é "Fast" Eddie Felson, um jogador de sinuca no memorável The hustler

Ainda me lembro como se fosse hoje. As sensacionais tacadas de Rui Chapéu, um mestre da sinuca brasileira, transmitidas pela Rede Bandeirantes, todo domingo. Com sua famosa boina, gravatinha borboleta e impecável figurino branco, ele arrancava suspiros dos convidados da emissora no estúdio e dos telespectadores em casa, todos embasbacados com suas jogadas incríveis.

Nosso interesse pelo jogo, meu e de meu irmão, não era gratuito porque todas às vezes que viajávamos de férias para casa de nossa tia, no interior de Goiás, passávamos tardes inteiras em volta de uma mesa de sinuca. Eu, meu irmão e meus primos. Antigos proprietários de um comércio, eles perderam tudo após malfadado gerenciamento, mas preservaram a mesa. Para nossa sorte.

Mais tarde, desafiávamos a autoridade de nossas mães jogando partidas escondidas pelas biroscas perto de casa. O medo era uma amiga constante já que, todos menores de idade, éramos vítimas fáceis tanto do Juizado de Menores, quanto dos policiais.

Paul Newman desafia Jackie Gleason (à esquerda), o Minnesota Fats, o rei do pedaço, para um duelo de 36 horas

Uma vez, minha tia nos surpreendeu jogando uma partida perto de casa. A confusão estava armada. Meu primo, o menor de todos, bem que tentou se esconder debaixo da mesa, mas esqueceu de levar com ele o taco de bilhar, que o entregou.

Bons tempos aqueles revividos depois de ver o clássico The hustler, filme de 1961 estrelado por Paul Newman e que acabou de sair em DVD duplo no Brasil pelo selo Cinema Reserve, da Fox. A edição de luxo traz como bônus um DVD inteiro com informações adicionais como entrevistas com os astros da fita – entre eles o próprio Newman -, histórias de bastidores e uma conversa com os maiores especialistas do esporte nos Estados Unidos.

Dirigido por Robert Rossen (A grande ilusão), um filho de judeus que nos anos 50 havia sido perseguido pelo Macarthismo – Desafio à corrupção, como a produção ficou conhecida por aqui, causou polêmica por levar às telas os bastidores do submundo do bilhar, um “hobby”, até aquele momento, visto como um passatempo para vagabundos e desocupados.

Em The hustler, George C. Scott tenta comprar a alma de Newman: "25% de algo é melhor do que 100% de nada", diz Eddie, justificando a inescrupulosa parceria

A abordagem realista, povoada de um olhar social, que era o estilo de Rossen, um homem do teatro de conscientização, humanizou aquela realidade pouco conhecida do grande público. A polêmica em torno do filme se dissipou depois das nove indicações ao Oscar, entre elas a de melhor filme e diretor. Paul Newman, na época um astro em ascensão, também não foi esquecido por sua espetacular atuação. Mas The hustler levaria apenas as estatuetas de melhor direção de arte e fotografia.  

Baseado na novela de Walter S. Tevis, a história já era conhecida dos palcos, quando foi adaptada 20 anos antes. Com roteiro do próprio Robert Rossen e Sidney Carroll, a fita segue os passos do jovem Eddie Felson (Paul Newnam), ou Fast Eddie, o trapaceiro do título original. Arrogante, dono de si e talentoso com o taco, ele viaja o país ao lado do parceiro Charlie (Myron McCormick).

Juntos, eles dão golpes de mestre nos “patinhos” do pano verde com um truque barato, mas eficiente, que consiste em mostra vulnerabilidade na mesa durante as primeiras partidas, até as apostas aumentarem. Daí é só administrar as tacadas certeiras e recolher a bolada no fim da rodada. O truque, que resume toda a ideia do filme, arrematada no título, é mostrado de forma magistral logo nos primeiros minutos.

Agora Fast Eddie quer desafiar o rei do pedaço, ninguém menos do que Minnesota Fats, interpretado pelo ótimo Jackie Gleason. O confronto é inevitável, mas humilhado após extenuantes 36 horas de partida, chega ao fundo do poço apenas com uma ideia fixa na cabeça: a revanche. Oportunidade sinalizada após um acordo de Fausto com o cruel e calculista apostador Bert Gordon (George C. Scott, aqui num dos seus primeiros papéis no cinema). “25% de algo é melhor do que 100% de nada”, diz Fast Eddie, justificando a inescrupulosa parceria.

O campeão mundial de sinuca Willie Mosconi (à esquerda), dando umas dicas a Paul Newman sobre as melhores tacadas

Com as cenas das partidas entre Fast e Fats rodadas no Ames Billiard Academy da rua 44 com a Broadway, famoso salão de bilhar de Nova York, The hustler traça um retrato vigoroso, realista e denso do submundo da sinuca, trazendo à tona toda a psicologia, artimanhas e podridão que se escondem entre uma tacada e outra. Mas do que um filme sobre os bastidores desse esporte elegante, o diretor Robert Rossen queria realizar um drama sobre a personalidade humana. “Querida, lembre-se. Não é um filme sobre bilhar, mas sobre caráter”, disse certa vez a sua montadora Dede Allen.

Tal premissa é potencializada com a figura da frágil e insegura Sarah (Piper Laurie), uma jovem alcoólatra com um passado nebuloso e um futuro nada promissor. Realidade anunciada no estranho relacionamento com o egoísta e imprevisível Fast Eddie. “Temos um contrato de depravação. É só fecharmos as persianas”, ironiza ela, sem esconder seu amor por ele.

Trágico e revelador, o filme, que contou com assessoria de luxo do campeão mundial de bilhar Willie Mosconi – inclusive um dos figurantes da trama – -, tem desfecho exemplar, com Eddie, sim, limpando Minnesota Fats e seu bando na mesa, mas amaldiçoando sua carreira nos salões de bilhar por um bom tempo. Até Martin Scorsese reviver o personagem de Paul Newman em A cor do dinheiro, nos anos 80. Mas essa é uma história para um outro post…

* Esse texto foi escrito ao som de: The doors (The doors), Strange days (The doors) e Sticky fingers (The Rolling Stones).

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