Burt Lancaster é “O homem pássaro”

Burt Lancaster foi um dos rostos mais expressivos da Hollywood 

Burt Lancaster tinha um dos rostos mais viris e expressivos da Hollywood dos anos 50 e 60. Também um talento ímpar. É, de longe, um dos meus atores preferidos junto com Paul Newman, Marlon Brando e Jack Lemmon. Com seu corpo atlético e grande expressividade, teve a oportunidade de trabalhar com os grandes diretores de cinema da época, entre eles o mestre Luchino Visconti, que o dirigiria no soberbo O Leopardo, épico de 1963. Lancaster também foi protagonista das cenas mais marcantes do cinema em preto e branco, entre elas a antológica sequência de A um passo da eternidade (1953). Você pode até não ter assistido ao filme, mas com certeza já viu a famosa cena em que ele e a deslumbrante Deborah Kerr são flagrados pela onda do mar enquanto dão um beijo ardente jogados na areia da praia. Talvez seja uma das passagens mais sensuais do cinema.

Aliás, o filme todo era um pesadelo para qualquer censor fuinha. Dirigido por Fred Zinnemann, tinha como temas o adultério, alcoolismo, além de insinuações homossexuais, entre outras coisas. Na tela, Burt divide esses conflitos com astros como Montgomery Clift e Frank Sinatra, em uma de suas melhores atuações. E por falar em atuações, Lancaster entraria para a história das telonas com o vibrante Entre Deus e o Pecado, com o qual levou o Oscar de Melhor Ator em 1961. Baseado no romance de Sinclair Lewis e dirigido por James Brooks, conta a história de Elmer Gantry (Lancaster), um caixeiro-viajante que, da noite para o dia, transforma-se em celebridade local ao encarnar um pastor charlatão. Crítica virulenta aos falsos profetas e ao sensacionalismo promovido pelas religiões, a fita traz um Lancaster atraente, cínico e às vezes adoravelmente inocente.

Você pode não ter assistido ao filme, mas com certeza já viu a cena milhares de vezes

Mas foi protagonizando dramas intimistas que o astro conquistou de vez minha admiração. Vai ficar para sempre na minha memória tipos marcantes como o grosseiro e simplório italiano Alvaro Mangiacavallo, de A rosa tatuada, clássico de 1955 baseado em peça do dramaturgo Tennessee Williams, e o amargurado Robert Stroud, de O homem de Alcatraz (1962), que vi recentemente em DVD. Há muito tempo que desejava ver esse filme. Não sei quantas vezes perdi as exibições em TV a cabo e, como ainda não tinha saído em DVD no Brasil, a espera foi longa, mas valeu à pena. Para mim é um dos melhores filmes já realizados sobre essa temática, ou seja, os bastidores da prisão. Bate feio o clássico do gênero Fuga de Alcatraz (1979), com Clint Eastwood, que adoro. Mas seria comparar os Beatles com, sei lá, Badfinger.

As duas fitas sobre Alcatraz são baseadas em fatos reais. Mas o drama protagonizado por Lancaster é mais contundente, exemplar. Condenado à prisão em 1919 por homicídio, Stroud vê sua situação se complicar quando, anos mais tarde, mata um guarda penitenciário que, por puro sadismo, o impediu de ver sua mãe. Confinado a passar o resto da vida na cadeia, tem a chance de amenizar a dor da rotina maçante  e de um futuro interrompido brutalmente, quando num belo dia, se depara com o filhote de um pardal no pátio onde toma sol. O ninho havia caído de uma árvore e, ao adotar a pequena ave, ele tem o destino transformado para sempre. A partir dali seria conhecido como o homem pássaro.

Do inusitado encontro entre essas duas criaturas completamente diferentes nasceria uma grande amizade. Mas do que isso. Fascinado com Tampinha, seu novo amiguinho, Stroud passa a se interessar efusivamente pelos pássaros, a ponto de se tornar, mesmo com o terceiro ano primário, num ornitólogo de renome ao escrever um livro que traz a cura de algumas doenças da espécie. Mas as forças do sistema irão colocar uma pedra no caminho dos dois.

Telly Savalas e Burt Lancaster em cena de O homem de Alcatraz

Narrado a partir das memórias de Thomas E. Gaddis (Edmond O’Brien), o sujeito que biografou a história de Troud, o filme recorre a sentimentos humanos abstratos como afeto, tolerância, compreensão, ambição, inveja e solidão para falar das injustiças que escondem por traz dos regimes carcerários, um mundo pontuado por dilemas como suborno, corrupção, estupidez e sadismo. Elementos, segundo Stroud, explosivos o suficiente para escrever um best-seller. A frase no filme é usada para explicar um projeto ambicioso que ele queria levar adiante, mas abortado pela inveja, desrespeito, vaidade e medo do diretor da prisão: um livro sobre a história do regime penitenciário nos Estados Unidos. “Essa obra me atinge diretamente”, acusa o sádico burocrata.

No filme, que traz ainda uma sensível trilha sonora assinada por Elmer Bernstein, além de atuação memóravel de Telly Savallas (mais tarde imortalizado na pele do detetive Kojak), pelo menos duas passagens são memoráveis para mim. A primeira quando o carcereiro lamenta a falta de sensibilidade de Stroud, um “homem de cara dura e sentimentos frios”, incapaz de dizer um obrigado. Com a queixa, o homem das chaves enfatiza sua amargura e solidão diante daquela rotina num ambiente marcado pela tristeza e falta de perspectiva. A segunda, quando Tampinha, o pardal encontrado por ele volta à cela do amigo depois de ganhar a liberdade pelas suas mãos. Assim como o seu protetor, o mundo lá fora era demais para uma pessoa que passou a maior parte da vida privada da maior riqueza que um homem pode ter: a liberdade.

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