Um roqueiro sertanejo

Show da dupla Chitãozinho e Xororó foi profissional e honesto

Show da dupla Chitãozinho e Xororó, em BsB, ontem, foi profissional e honesto

Sou roqueiro até a medula, mas, por natureza, tenho alma sertaneja. Sabe como é, meu chapa, não posso negar minhas origens, minhas raízes. E foi com esse espírito que entrevistei ontem, na Villa Mix, em Brasília, o Chitãozinho & Xororó, naquele que foi o primeiro show da dupla do ano. Antes da apresentação, bati um papo com eles no camarim, sobre os 40 anos de carreira dos dois artistas que já venderam quase 40 milhões de discos em quatro décadas.

O Xororó se mostrou abatido, triste e calado e quando ele subiu ao palco, mas animado e bem à vontade, confidenciou com o público da casa que estava sem voz e que passara uma semana tensa já que a sogra havia feito uma cirurgia de coração. Profissional, pediu ajuda dos fãs. “Espero contar com a compreensão de vocês e que vocês possam me ajudar com as canções”, disse, esbanjando simplicidade.

De dupla sertaneja entendo um pouco porque, como autêntico menino do interior, cresci ouvindo os clássicos do gênero na voz de Tião Carreiro e Pardinho, Pedro Bento e Zé na Estrada, Tonico e Tinoco, além de Zezé Di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo e, veja você, Chitãozinho e Xororó. Não que eu fosse fã ou algo do tipo, mas meio por osmose, já que o coroa e os meus tios e tias gostavam do som.

A primeira vez que os vi achei engraçados, com aqueles cabelos arrepiados em cima e liso em Ch e X 4embaixo. Pareciam índios e, com o perdão do trocadilho, estavam na crista da onda com o sucesso Fio de cabelo. Na entrevista eles me disseram que o corte foi inspirado no Rod Stewart. 

Confesso que gosto de algumas músicas na voz da dupla, mas não sei nome, muito menos as letras, vou pelo rumo. Por isso que estava me sentindo um tomate vegetativo no meio daquele tanto de fãs com suas enormes fivelas e chapéus idem. Aliás, nunca levei tanto cotoco no umbigo e no nariz. Ou seja, fivelada no pé da barriga e chapeuzada na testa e no nariz.

Já tive oportunidade de ver um show do Zezé Di Carmago e Luciano e se você já viu uma performance de dupla sertaneja, já viu todos. E a apresentação em comemoração aos 40 anos de Chitãozinho e Xororó não teve nada de excepcional, apenas profissa do começo ao fim. A começar pela banda super afinadíssima, destaque para o backing vocal e violão de apoio Daniel Quirino, um morenão de voz grave que roubou os números umas duas ou três vezes.

Um dos momentos que destaco foi quando Chitãozinho viu uma faixa no meio da platéia e dedicou o show ao jovem Leonardo Monteiro, vítima da operação Tartaruga, quando foi assassinado na porta de casa, em Águas Claras. “A gente dedica esse show a você Leonardo, que com certeza está muito bem onde está”, disse.

Noutra cena, Xororó pegou a viola e fez um discurso saudosista acerca de suas origens e raízes, enfim, coisas que já mencionei logo acima. “O trem é chique!”, disse, arrepiando a viola. Lá pelas tantas, cinco Budweiser na cabeça e comecei a ter delírios auditivos. Não sei não, mas ao final de Galopeira acho que a banda mandou um rápido medley de Roadhouse Blues, dos Doors, e Smoke on the water, do Deep Purple. Fora isso teve um rap no meio de Festa de rodeio e as demonstrações de habilidade de Xororó no banjo. Além de um cover de Tente outra vez, do Raul Seixas, música que impediu, veja você, que um dia a dupla acabasse.

Para encerrar em clima de festa o show com cara de pop sertanejo, Nascemos pra cantar uma versão não sei de quem que me emociona por causa dos versos: “Disse o poeta, o artista vai onde o povo está/Por isso cantamos a qualquer hora em qualquer lugar”, diz.

Sai da Villa Mix, eu, um roqueiro de alma sertaneja, com a sensação de ter assistido um show pop sertanejo honesto.

* Este texto foi escrito ao som de: Chitãozinho e Xororó (1972)

Ch e X 3

All you need is Paul in Goiânia

E que tal tomar um chá com Sir McCCa no Serra Dourada?

E que tal tomar um chá com Sir McCa no Serra Dourada?

Se eu vou ao show do Paul em Goiânia? Meu filho, só se cair uma árvore em minha cabeça ou algo do tipo daqui para lá. Do contrário, nada vai impedir de eu ver meu beatle preferido em Goiânia, até porque sou goiano do pé rachado e uma coisa que eu jamais pensei que fosse ver era um ex-beatle tocando em Goiás, terra desses sertanejos insuportáveis.

E não me interessa, não importa, não estou nem aí se foi o Zezé Di Camargo, com sua influência, quem ajudou a trazer Paul McCartney para tocar em Goiânia. Poderia ser até o pior dos meus inimigos, o felicitaria por isso.

O que representa o Paul tocar em Goiânia? Muitas coisas, pelo menos para mim. Fui ao show dele em São Paulo e admito que foi a melhor coisa que me aconteceu na vida, chorei pacas, mas ver, ouvir, sentir Paul McCartney tocar em Goiânia tem um gostinho a mais porque o rock ‘n’ roll nunca foi hegemonia, nem nunca será, por essas bandas daqui.

Lembro como se fosse hoje do quanto as pessoas da família e conhecidos me olhavam com cara de terror, quando eu colocava alguma canção dos Beatles ou da carreira solo dele na minha vitrola. Era como se eu tivesse cometido um crime, um sacrilégio contra o poderio do sertanejo brega, naquela altura, no auge com o sucesso de Zezé Di Camargo e Luciano e o primeiro LP da dupla.

E olha que eram os Beatles na vitrola ou, no mínimo, um dos ex-beatles, mas as pessoas achando a coisa mais estranhaPaul Em Goiânia do mundo, me olhando como se eu fosse um traidor da sensação musical do momento.

Bom, queria que a apresentação de Sir Paul fosse, sim, em Brasília, naquele estádio de “mentira” que o governo local está construindo, porque a capital do país é cosmopolita e traz em seu DNA o que há de melhor do pop rock, mas não deu e que venha o Serra Dourada, que nunca entrei para ver uma partida de futebol.

Por ironia do destino, piso no templo do futebol goiano para assistir a um show e não tenho nenhuma vergonha de dizer isso. Quero ouvir Paul McCartney, aos 70 anos, tocar novamente, ao vivo, minha canção predileta gravada pelo fab four e escrita por ele que é Hey Jude  e chorar quando isso acontecer…

… E que o resto venha depois…

“Nunca vou deixar de ser um beatle”, disse ele recentemente em entrevista e isso para mim já basta como motivo para não deixar de ir ao Serra Dourada no dia 06 de maio.

Tudo o que eu preciso é de Paul McCartney perto de mim…

* Este texto foi escrito ao som de: McCartney II (Paul McCartney – 1980)

McCartney II

Envelhecer com dignidade

Zezé está solteiro, sozinho na pista. Alguém perguntou alguma coisa?

Gente, o Zezé Di Camargo mandou avisar que está solteiríssimo, sozinho na pista. De modo que faço a pergunta cretina, assim, na lata: e daí? Quero mais que esse anãozinho de Velásquez metido a besta se exploda. A coisa que mais odeio, detesto em casais, sejam elas pé rapados ou celebridades, é lavar roupa suja de suas crises em público ou mesmo ficar discutindo o relacionamento diante dos holofotes, mesmo que a separação, o fim da relação, seja lá o que for, tenha acontecido numa boa.

O certo para mim, mantendo a elegância e descrição, é sempre não comentar nada sobre o assunto, uma linha sequer, ou seja, fazer como o rei Roberto Carlos, em ocasiões similares, se recolher em sua caverna de ouro e diamantes e PT saudações.

Mas o Zezé, não! Vaidoso que é, tem que dá uma palinha, tem que dar um ibopezinho, fazer um teatro diante das câmeras, senão não dá pé, sabe como é né, coisa de baixinho e todo baixinho é fogo, já dizia o cangaceiro Assis Chateaubriand. “A coisa que mais gosto é quando as pessoas se assustam quando digo que tenho 50 anos”, disse no último Fantástico, se gabando.Jesus Cristo! Vai chupar prego seu Mirosmar, o cara está todo remendado e esticado de plástica aqui e acolá e fica tirando onda de garotão. Só falta ele querer agora posar pelado para revista masculina, ui!

O que mais me irrita, me deixa assim sapateando como bailarina espanhola no chão é quando o sujeito não sabe envelhecer com dignidade. Daí faz papel de ridículo no meio da garotada, paga o maior mico entre os amigos e nem ver. A Xuxa é outra que está cheia de pelanca e posa como ninfeta cinquentona. Tenho umas tias, vizinhas e colegas de trabalho que também agem desse jeito, ou seja, completamente patéticas, cheias de batom, pó de arroz e não sei mais o quê, pelanca caindo daqui, acolá e eu do meu canto pensando assim: “Nossa, quanta pobreza de espírito”.

Mas sabe como é, vaidade meu caro. “Vaidade, da vaidade, nada mais do que vaidade”, já ensinava o mestre Shakespeare. Eu sei um pouco de vaidade não faz mal a ninguém, até ajuda na autoestima, mas quando o sujeito é vaidoso ao extremo, cospe para cima e nem viu que se sujou. Faz que nem o príncipe dos Canalhas, um sujeito que ficava se gabando de ganhar cantada de gay e se exibindo para mulherada por causa disso. Eu teria, no mínimo, vergonha, mas o sujeito é de uma pobreza de espírito ululante.

Mas voltando ao Zezé Di Camargo cinquentão e solteiro, na boa, acho que namoro, casamento e separação, enfim, todo tipo de relação, tem que ficar entre quatro paredes ou o mais escondido e discreto possível. Algo a ser resolvido a sete chaves, porque se cair na boca do povo meu chapa, vira bagunça, esculhambação, caricatura, deboche. Falo por experiência própria e no meu caso era só uma daquelas paixonites platônicas infantis, mas como fui ingênuo e me escancarei a deus e todo mundo, pior, me declarei à pessoa amada, não demorou muito estava de tarado na fita e logo eu que não como ninguém.

De modo que dessa patuscada toda aprendi uma grande lição: sentimentos, podem ser eles de alegria, dor, amor, tristeza e felicidade, guardamos apenas para nós mesmo e pronto final.

E pensar que aprendi tocar violão ouvindo o boçal do Zezé Di Camargo…

* Este texto foi escrito ao som de: Zezé Di Camargo & Luciano (1996)

Breno Silveira à beira do caminho

Apesar dos problemas, esse road movie emocina pela sinceridade

Apesar de ser goiano do pé rachado nunca gostei de música sertaneja e sempre odiei a dupla Zezé Di Camargo e Luciano. Quer dizer, estou mentido descaradamente. Gosto de música sertaneja de raiz sim e aprendi tocar violão tocando Beatles e, acredite, Zezé Di Camargo e Luciano. Pronto, disse e que atire a primeira pedra quem um dia não se balançou todo ouvindo a baladona É o amor. Mesmo assim, quando 2 filhos de Francisco entrou em cartaz, fui ver a fita assim, com um preconceito mastodôntico. Bobagem porque saí da sessão adorando o filme e com lágrimas nos olhos.

Claro, hoje não gosto mais de Zezé Di Camargo e Luciano, mas virei fã de carteirinha do diretor Breno Silveira, que é um cineasta que não tem vergonha de esconder a emoção. Por isso que a trilha sonora de seu mais novo projeto que estreia hoje, em mais de 210 salas, é conduzida por ninguém menos do que Roberto Carlos e não precisa dizer mais nada.

“As músicas do Roberto Carlos desde a adolescência mexeram comigo, é algo que não sei explicar”, confessou o diretor, ao blog, num rápido bate-papo, ontem (09), no Mercury Hotel. “Acho que todo brasileiro tem um pouco disso, difícil alguém não se emocionar com as músicas do rei”, emendou.

E é verdade. Para mim, alguém que não gosta de Roberto Carlos e Beatles boa pessoa não pode ser e ponto final. Daí a empatia quase que certeira que terá grande parte do público que for assistir ao drama À beira do caminho, um road movie que gira em torno da figura do caminhoneiro João (João Miguel), um sujeito de mal com a vida e com o passado que o condena, este, um fantasma em sua cabeça e em seu peito que ele carrega por onde passa, pode ser no asfalto quente que corta Pernambuco ou o Sertão da Bahia, as estradas sinuosas de Minas Gerais ou a movimentada São Paulo.

“A estrada no filme é secundária, o grande personagem dessa história é mesmo o João, um cidadão comum tentando sair desse buraco emocional, buscando a sua redenção”, explica Breno Silveira, que acaba de finalizar outro projeto que irá contar a relação entre o pai Gonzagão e o seu filho Gonzaguinha. “Sempre gostei de falar de relações em meus filmes, me dou bem com esse tema porque laços ajudam a forma uma vida e quando isso é mostrado de forma sincera, verdadeira toca as pessoas”, constata.

Em À beira do caminho esses extremos acontecem entre o rude João é o menino Duda, que um dia toma de assalto seu caminhão em busca do pai que nunca conheceu na maior cidade do país. “Uma mão lava outra, foi assim que aprendi”, diz o guri, vivido pelo ótimo ator mirim, Vinícius Nascimento. “Minha mãe adorava essa música”, diz ele, cantando a fraterna, Amigo, numa tentativa frustrada de derreter o coração de pedra de seu mais novo irmão de fé e camarada.

Aos poucos, na dureza e solidão da estrada eles vão estreitando suas diferenças e descobrindo a importância de um ter o outro diante das agruras da vida porque como diz o pequeno Duda, o jeito é fazer que nem os caminhoneiros, sempre seguir em frente porque se olhar para trás a gente se perde.

Tudo bem, eu sei que, apesar do esforço da roteirista Patrícia Andrade e do talento do diretor Breno Silveira em tocar as pessoas, À beira do caminho não é um projeto que decola. Pelo contrário, carrega nessa boleia sentimental muitos problemas, derrapa feio na estrada criativa por apostar no trajeto mais fácil de contar uma história. Mas graças ao carisma das canções do rei e da sinceridade dos dois realizadores, consegue um resultando final que emociona, mesmo a gente tendo lá no fundo a leve impressão que pegou o caminho errado.

* Este texto foi escrito ao som de: Roberto Carlos em ritmo de aventura (1967)