Contos eróticos (3) – Linda como um anjo

Um anjo
 
Alta, magra, cabelos negros volumosos e sorriso cativante, Verinha era uma criatura apaixonante. Diria que

"Alta, magra, cabelos negros volumosos e sorriso cativante, ela era linda como um anjo..."

formidável. Muito mais do que isso. Ela era uma coisa de outro mundo. A primeira vez que Pedro a viu, andando pelos corredores da empresa, teve um sobressalto vertiginoso:

- Meu Deus, é um anjo que caiu do céu?! É um anjo?! Perguntava, de si para si, mordido de desejo. Quando conversou com ela pela primeira vez então, quase morreu de tanta tremedeira, a dor no estômago o açoitava cruelmente. O encontro foi numa manhã qualquer, no cafezinho. Segurando um copinho de plástico, encostada na parede, ela, que trazia preso ao cabelo, um charmoso tic-tac, foi receptiva:

 – Olá, você é novo por aqui, né?!

Gelado de emoção, Pedro, teve a fala quase empedrada:

- Quem, eu?! Sou…

Respondeu, meio abobado.

Vestindo uma saia branca de renda comprida, que combinava com uma blusa também alva, aboletada com detalhes de florzinhas, ela parecia, de fato, um querubim dentro da blusa de lã azul clara que cobria seus ombros largos e braços compridos. Aliás, a blusa de frio azul clara era a indumentária, digamos assim, que melhor captava a sua aura angelical. Perdidamente apaixonado, Pedro exultava:

- É um sonho tudo isso? Será um sonho?!

Mas tinha um, porém. Esse primeiro encontro seria revelador. Já que, meio que escondido entre o copo de plástico e a pequena carteira, brilhava na mão esquerda de Verinha, uma aliança dourada. Como diria um daqueles personagens de Nelson Rodrigues:

- Espeto!

Mas segundos depois, motivado pelos pezinhos delicados e deliciosos de seu anjinho de porcelana, ele dá de ombros e deixa escapar ao léu:

- Azar!

A soberba

"...Mas às vezes soberba como uma Cleópatra..."

Não tinha como negar. O dia-a-dia com aquela gracinha meiga e clara como Branca de Neve, deixara Pedro com o

coração doente de amor, e o da pior espécie, platônico. Pois é do tipo que você deseja, mas não pode alcançar. Ele se sentia, assim, um Ícaro do século 21. Existe algo mais triste? É possível ter algo mais romântico?

O que ele mais gostava em Verinha era sua delicadeza desmedida. Dona de uma educação quase vitoriana e sorriso hipnotizador, ela se tornou o Sol dos seus cinzentos dias. Mas quem ver cara não vê coração. E, como já dizia o velho mestre do cinema Billy Wilder, naquela clássica comédia de 1959, Quanto mais quente melhor: “Ninguém é perfeito!”.

Embora fosse atenciosa e simpática pela frente, zombava pelas costas das investidas ingênuas do pobre rapaz. Achava sua insistência e excessivo zelo um assédio. Para ela, sua atenção e afeto era um incômodo abissal, hediondo, crasso.

- Esse cara não larga do meu pé!

Sempre dizia, deixando escapar uma soberba de Cleópatra.

Noutra ocasião, exagerou, cunhando uma frase que se tornaria, entre as colegas sádicas, uma pérola:

- Ele me parece um sujeito legal, tenho até pena, mas às vezes ele força a amizade, né?!. As amigas, comovidas e solidárias às reclamações da companheira, concordavam qual um coro grego:

- É verdade, é verdade!!!

E assim, entre a vaidade sádica de Verinha e o sofrimento romântico de Pedro, os dias iam passando com a calma que os deuses do tempo outorgara. Até o dia em que o marido da jovem balzaquiana deu o ar da graça. Ou melhor, não deu ar de graça nenhum

O marido boçal

 Viu o marido do seu grande amor, se muito, duas ou três vezes, de relance, coisa muito rápida. Movido por uma paixão galopante, diria que acachapante, desprezava categoricamente a existência do sujeito. Na verdade, nem queria ouvir falar do camarada que, segundo a maledicência jocosa dos amigos, não passava de um grande boçal:

- Daqueles de dar patadas rutilantes no asfalto. – exagerava Armandinho.

- Mas porque, perguntava, curioso Pedro.

- Imagina, eu, com um pedaço de desejo daquele em casa, não deixava andar por aí dando sopa, nem morto.

Arrematava.

Em transe, diante dos gestos, cheiro e calor exalado por Verinha, Pedro suspirava:

- Bobagem…

Mas a verdade é que Carlos vacilava. Atarefado até o pescoço com as empresas, uma em Brasília e outra filial em São Paulo, quase não tinha tempo para a mulher e o pequeno Victor. De modo que a rotina da gata era, “casa, escola do filho, trabalho, casa da mãe para pegar o pequeno Victor, casa de novo e trabalho”. Era quase uma roda-gigante do tédio.

Nos fins de semanas, uma vez ou outra, um cineminha básico, porque ninguém é de ferro. Ou senão, aqueles encontros fellinianos na casa da “parentada”, dele ou dela, dependia do humor de cada um.

Descanso mesmo, só nas férias, quando zarpava para o exterior, sozinha, claro, com o filho ou as tias, ou para praia, porque Verinha, radiante como era, amava o Sol. Já Carlão, o boçal, ou estava atolado até o pescoço com o trabalho, ou perdido no meio de um descampado qualquer com a “turma”, praticando o hobby mais sem graça do planeta: a pescaria. Resumindo, o cara era uma sardinha, de tão indolente.

De modo que não chegou cinco anos e os dois estavam separados, cada um para o seu lado. Desolado de desejo por Verinha, Pedro, uma alma desolada de sofrimento, nem imaginava que sua hora chegara. O problema era ele despertar desse torpor platônico.

A entrega
Um dia, no trabalho, quando menos esperava, eis que o plantão de Pedro coincidiu com o de Verinha. Como era

"Vestida apenas com a meia calça e as sandálias de salto alto, sussurra com uma voz cheia de tesão: Me come seu puto, me come!".

comum nessas ocasiões, o ambiente era quase vazio, tomado apenas pela metade do grupo. A notícia de que a gata mais linda do pedaço estava arisca, solta, se espalhara como rastilho de pólvora. Mas Pedro, agora intimidado pelo desprezo do grande amor da sua vida, nem chegava perto. Afinal, ele não ostentava poder, não era filho de diplomata, não ocupava cargo de chefia. Falar o quê, fazer o quê?

De modo que, para não ouvir a voz do lindo serafim, ficava na sua, curtindo rock britânico o dia inteiro no fone, quando não tinha que atender as exigências do chefe. Mas numa noite, quando ja saía para ir embora, teve a atenção despertada por uma voz melíflua:

- Ei, Pedro, já vai, querido?! Me acompanha até o carro. À noite o estacionamento é escuro, perigoso que só…

Sem querer acreditar, Pedro dava beliscões nos braços. Pensou que fosse até com outra pessoa, uma ilusão auditiva, alguma coisa do tipo já que ela não era de ficar de conversa com qualquer um, ainda mais com um matusquela como ele. Queria que fosse verdade, mas tinha medo do sofrimento póstumo, passado a alegria daquele instante. Mesmo assim, deixo-se virar:

- Eu?! Claro…, tartamudeou.

No caminho, Verinha indagava com a ternura de um colibri, de uma cambaxirra.

- Você anda meio diferente, distante, frio até, o que foi? Tá tudo bem contigo?

Surpreso com a pergunta, Pedro, num rompante de loucura, destrava a língua. As palavras jorravam do seu coração:

- É, talvez, não sei, é difícil de falar sobre essas coisas, dispara, já chegando na porta do carro da gatinha cheirosa como um jardim de camélias.

Inocente, Verinha tenta quebrar o clima tenso. Preocupada, pergunta:

- Mas o que foi, não entendo, posso te ajudar, é alguma coisa comigo?

Com a voz embargada, quase chorando, o rapaz faz a declaração que mexeria com a soberba e o sadismo da jovem:

- A coisa mais triste que tem na vida é desejar alguém e não poder fazer nada, soluça. – Eu te desejo tanto Verinha, mais tanto e não posso fazer nada, nada, você entende? diz, em prantos.

Misturando compaixão e surpresa, meio perdida diante daquela situação insólita, ela passa, delicadamente, a mão direita pela face de Pedro. O gesto foi quase automático. Assim como a reação seguinte de Pedro, que buscou a boca quente e deliciosa de Verinha. O beijo foi demorado, molhado, ardente, como tem que ser ao despertar da mais louca entrega.

"A forma de 'v' do seu sexo traçava perspectiva que remetia a uma daquelas pinturas renascentistas exuberantes..."

De meia calça preta, da cor do seu sexo…

Em questão de minutos, estavam os dois no apartamento dela. Como chegaram lá, com a rapidez e desenrolar da situação, só o acaso poderia dizer.

Deslumbrante, dentro de um vestido gelo que mais parecia um sobretudo ou casaco, sei lá, estilo Nova York, anos sessenta, ela excitara Pedro mais ainda com a meia calça preta, que combinava elegantemente com as sandálias de salto alto que usava.

Não esperou a iniciativa do amante. Num golpe violento desabotôo ela própria a roupa que vestia e, de joelhos, caiu de boca no sexo intumescido do rapaz. A língua sinuosa serpenteava o membro quente, fazendo Pedro gemer de desejo ao som da baladona Wake up, da banda canadense Arcade fire.

 Depois, virando-se para ele, novamente de joelhos, só que dessa vez sobre o assento do sofá e as mãos no encosto, Verinha, “vestida” apenas com a meia calça e as sandálias de salto alto, arrebita o rabo gostoso e sussurra com uma voz cheia de tesão:

- Vem, vem!

Com uma das pernas como apoio, agora era a vez de Pedro lamber o sexo excitado da gatinha singela que desejou por tanto tempo. Movendo a língua abrasadora pelos buracos do pecado de Verinha, a fez gozar em minutos. Nem esperou ela se recuperar do intenso momento de êxtase. De pé, com o pau cheio de volúpia, pegou-a por trás, possuído-a de forma selvagem, com toda a força que os anos de uma paixão não correspondida lhe davam o direito. Com as mãos firmes na cintura da gata domada, dava estocadas viscerais:

- Me come seu puto, me come, gritava, ela, louca de prazer.

Agora, sentada no colo de Pedro, Verinha cavalgava sobre o sexo vertiginoso do parceiro, deixando à mostra a bocetinha riscada de uma delicada penugem, da cor da sua meia calça. A forma de “v” do seu sexo traçava perspectiva que remetia a uma daquelas pinturas renascentistas exuberantes. Molhada de suor, com pequenas mechas de cabelos grudadas pela testa, pelos seios brancos, ela inclina a cabeça para trás e busca a boca do amante. Beija suavemente a língua de Pedro, dizendo:

- Gostoso…

* Esse texto foi escrito ao som de: Funeral (Arcade fire) e Neon bible (Arcade fire).