Os fabulosos tipos de Roque Santeiro

O trio parada dura aí fez o maior sucesso na novela Roque Santeiro...

Já vou lá pelo capítulo cento e alguma coisa de Roque Santeiro, a fabulosa e divertida novela de Dias Gomes que fez a cabeça do público brasileiro nos anos 80 e que agora está sendo reprisada na SKY, pelo canal Viva. Eu tinha lá meus nove, dez anos, mas já entendia, gostava e me divertia pacas com a galeria de personagens marcantes, criado pelo autor baiano, um dos mais brilhantes da televisão brasileira.

Aliás, que imaginação criativa e diabólica Dias Gomes tinha, só ele mesmo para criar tipos tão emblemáticos e inesquecíveis como desse grande sucesso da Rede Globo. Dê olhada, confira, até os atores coadjuvantes roubam a cena. Preste atenção, por exemplo, no divertido e desbocado cego Jeremias, interpretado pelo saudoso Arnaud Rodrigues. Também tem o fofoqueiro Jiló (João Paulo Barroso) que, de tão bisbilhoteiro, irrita a gente.

Gosto do jeito matuto do capanga mor e eterno puxa saco de Sinhozinho Malta, Terêncio, vivido pelo ótimo Waldyr Sant’anna. Para quem não sabe Sant’anna, advogado de profissão, mais tarde se tornaria grande dublador da emissora, dando voz, entre outros, ao bonachão, Homer Simpson.

Bem, a lista é enorme, de modo que escolho aqui os meus dez preferidos personagens de Roque Santeiro, esse retumbante sucesso que me fez gostar de novela, um produto, genuinamente, brasileiro.

Roque Santeiro – Criado por Dias Gomes nos anos 60, era o personagem central da peça, O berço do herói, censurada pela ditadura. Vivido na primeira versão por Francisco Cuoco, também vetada pelo regime, o coroinha que rouba da Igreja, fugindo da cidade de Asa Branca para se tornar, por motivos errados, padroeiro do local, seria imortalizado por José Wilker. Ele é o pivô de ruidosa discussão sobre a exploração e banalização da fé.

Sinhozinho Malta – Só mesmo o grande e talentoso Lima Duarte para transformar o cínico, covarde e controlador, Sinhozinho Malta, num dos personagens mais queridos e marcantes da televisão brasileira. Coronel de Asa Branca é ele quem manda e desmanda na cidade, fazendo do ódio que sente por Roque Santeiro, o instrumento de sua vingança. Com ele, escreveu, não leu, o pau comeu: “Tô certo ou to errado?!”.

Viúva Porcina – É verdade, Boni revela em seu livro que Regina Duarte só aceitou fazer a escandalosa e espalhafatosa Viúva Porcina se lhe dessem carta branca para ela fazer algo diferente e bota diferente nisso. Fogosa, espivitada e também controladora ela incendiava tanto o coração de Sinhozinho Malta, quanto o de Roque Santeiro, daí a rixa bíblica entre os dois. “Minaaaaaaaaaaaaaaaa!”, era o seu bordão, que enlouquecia a emprega e o espectador do outro lado da telinha.

Zé das Medalhas – Culto, Dias Gomes adorava criar seus tipos à sombra de personagens clássico da literatura. Zé das Medalhas, vivido pelo brilhante e saudoso, Armando Bogus, é a reencarnação nacional do célebre avarento de Moliére. Egoísta e, demasiadamente, demagogo, bate na mulher e é um dos que mais tira proveito da exploração do falso Santo. Ninguém se esquece de seu triste desfecho na trama, soterrado pelas medalhas que lhe deu riqueza.

Padre Albano e Padre Hipólito – Os dois religiosos, de tão diferentes e divergentes em seus ideais, acabam sendo tão parecidos e complementares. Um é taxado de Padre Vermelho, por conta de suas posições anárquicas. O outro conservador e retrógrado ranheta, mas ambos unidos na luta contra a farsa do mito de Roque Santeiro. Duas atuações impecáveis nas figuras de Cláudio Cavalcante e do inigualável Paulo Gracindo.

Roberto Mathias – Primeiro queria dizer que não tenho vergonha de confessar que gosto de Fábio Jr. Segundo, entender porque ele parou de fazer televisão, embora para mim, o seu personagem no filme Bye, bye Brasil, de Cacá Diegues, seja a melhor coisa que já fez como ator. Na novela, ele é o mulherengo, Roberto Mathias, ator que dar vida ao herói da cidade num filme que não termina nunca. Nunca o papel de canalha caiu tão bem em um artista, acredite.

Beato Salú – Nelson Dantas é daqueles atores que cuja discrição é uma de melhores papéis. Autêntico ator de teatro fez inúmeros filmes do Cinema Novo, mas entrou para o imaginário coletivo brasileiro encarnando o louco de comer sabão, Beato Salú, pai de Roque Santeiro. Não estranhe se algum dia você ver alguém rasgando o céu no rabo do comenta. Pode ser o Beato Salú indo tirar satisfação com Deus.

Tânia - Gatinha e gostosa, Lídia Brondi foi durante muito tempo um dos meus amores platônico na televisão. Aqui ela encarna a mimada e rebelde filha de Sinhozinho Malta que arrasta uma asa do tamanho do céu para cima do coitado Padre Albano, que não é de ferro e tem a carne fraca. O romance entre os dois causou polêmica e deixou a Igreja irritada.

Florindo Abelha – Banana de marca maior e pau mandado de Sinhozinho Malta, o prefeito Florindo Abelha – numa das atuações mais inesquecíveis de Ary Fontoura -, ainda tinha que enfrentar em casa a fúria da hipócrita e interesseira mulher, Pombinha (Eloísa Mafalda).

* Este texto foi escrito ao som de: Fábio Jr. (1979)

Ninguém é perfeito, sou fã de Fábio Jr.

Assim como seu filho Fiuk, Fábio Jr. foi meu ídolo de adolescência...

Como vocês sabem, a novela Roque Santeiro está sendo reprisada. Não no Vale à pena ver de novo, mas no canal por assinatura da Rede Globo Viva. E eu, grande saudosista que sou lá estou acompanhando capítulo a capítulo. Quando o folhetim de Dias Gomes e Aguinaldo Silva estreou, em 1985, eu ainda brincava de carrinho e chupava pirulito. Mas algumas cenas desse clássico da teledramaturgia ficaram marcadas em minha memória.

Uma dessas lembranças era sonora. E diz respeito à romântica canção que embalava o romance proibido da bela e rebelde Tânia (Lídia Brondi) e o Padre Albano (Cláudio Cavalcante), o “padre de passeata”, o “padre vermelho”, como gostava de alardear o sempre autoritário Sinhôzinho Malta (Lima Duarte). A outra era as atrapalhadas vividas pelo personagem Roberto Mathias, encarnado nas telinhas pelo divertido cantor Fábio Jr. Na trama, ele dá vida ao herói do título, no filme que estão rodando na cidade de Asa Branca, sobre sua trágica história. “E dizem de Roque Santeiro, o homem debaixo de um santo…”, cantava a dupla Sá e Guarabira.

Metalinguagem a parte, vale lembrar como é engraçado esse negócio de geração. Minha afilhada, que tem a mesma idade que eu tinha quando assisti à novela pela primeira vez, custa acreditar que o galã atrapalhado e mulherengo da novela é o pai do Fiuk, um dos ídolos de sua geração. É só olhar cara e focinho do outro. E outra coisa, tal pai, tal filho.

Fábio Jr. não era nenhum Tarcísio Meira ou Lima Duarte no que diz respeito à atuação, mas dava conta do recado, fazia o serviço direitinho. Gosto dele na pele do artista mambembe de Bye, bye Brasil, clássico road movie de 1979 dirigido por Cacá Diegues. E ele também deu um show como o fotógrafo canastrão Jorge Tadeu em Pedra sobre pedra, também de Aguinaldo Silva.

Mas gosto mais dele como cantor de músicas bregas e românticas. Assim como o filho Fiuk, que embala a geração hi tech de hoje, da qual faz parte minha filha, o Fábio Jr. foi meu ídolo de adolescência. Fazer o quê, ninguém é perfeito, né? Ah, se eu tivesse meus poucos 20 anos…